"Não me lembro o dia em que foi, uma terça ou quarta-feira, quando ela chegou em casa à noitinha com um breve sorriso que trazia em si uma curva de preocupação. A semana estava se passando morosa e pesada como um rolo-compressor por cima dela: os dias estavam sendo difíceis.
Assim que cruzou a soleira da porta e a trancou, despejou a bolsa no sofá enquanto enroscava um pé no outro para tirar os sapatos e então começar a relaxar. Quando os pés, quentes, tocaram o assoalho frio, subiu-lhe instantaneamente um torpor leve, era como se nada mais aconchegante houvesse no mundo do que aquele contato macio entre a sola do pé o solo.
Entrou no banheiro, despiu-se e girou a torneira do chuveiro para a temperatura da água se estabilizar, enquanto recapitulava alguns momentos do seu dia. A água batia-lhe crocante nos ombros, lavava-se, e os pés começaram a inchar. O torpor ampliou-se e migrou para os olhos, fechando-os.
O mundo parou por alguns segundos, a única coisa que a fazia viva naquele momento era o ouvir da água se estatelando no chão, sentir o calor dela escorrendo-lhe pelo corpo, e os pés sustentando aquela cena toda.
Desligou.
Terminado o asseio foi para a cozinha providenciar algo que lhe preenchesse aquele vazio, que saciasse aquela fome aguda e subissem os níveis de serotonina em seu organismo estafado. Foi o que fez. Sentou-se para ler e exercitar o punho, enquanto recobrava o universo que deixara suspenso por alguns minutos.
Não muito tempo depois de ter começado a estudar, seu telefone móvel tocou, ela atendeu e era a voz dele que trafegava em ondas pelos fios transmissores, do outro lado da linha, do outro lado do país, do outro lado da mente dela. O início da conversa foi o de praxe: saudações carinhosas, perguntas corriqueiras e sistematizadas seguidas de respostas não inesperadas. Até que a voz dela se alterou, enchendo o quarto e escapando pelo vão da porta, pela fechadura, pela fresta da janela: queria justificar-se. E para defender sua posição, diante da intransigente cobrança vinda de lá, ela falou-lhe cerca de sete vezes porquê não ligara.
A discussão mergulhou na noite, e ambos pareciam presos, imantados pelos ouvidos aos comunicadores já melados de suor das mãos que os seguravam, denunciando o estado exaltado em que se encontravam os interlocutores.
Sem prévio aviso, não fosse aquela longa pausa silenciosa e repentina - a voz dela saiu da garganta, mas agora estava fraca e embargada, talvez o esforço de persuasão tivesse passado então para os olhos (mas ele não a via), seu corpo se concentrava em uma só coisa: fazê-la chorar.
A voz masculina a convencera de que ela era culpada, que o lapso de memória que a acometera naquele dia não importava, que sua mente agitada e ocupada não era suficiente para que ela esquecesse. Ele chegou a dizer-lhe que sua "falha" era indigna, concluiu que ela não o amava simplesmente.
Ela, mesmo dolorida de tantas lágrimas, argumentava que pensava nele sim, que não o esquecera, que o amava. Mas desses três verbos, o primeiro era esporádico, o segundo verdadeiro - ela confessou o crime - o terceiro, ininterrupto.
Dando-se por satisfeito, ele a perdoou, depois, falaram despedidas e trocaram palavras carinhosas, como para remediar o turbilhão que se passara ou para cumprir as vias justas de um diálogo ou ainda, para certificarem-se do que eles não queriam nem podiam esquecer."
(set/10)