terça-feira, 2 de novembro de 2010

Verdade é que não existe uma única verdade

"Analisar o novo a partir do que já é conhecido pode resultar em uma indigestão, uma insatisfação. Isso é típico de seres humanos, coisa difícil mesmo de mudar. Mas, uma vez aberto às novas idéias, fica mais fácil assimilar e aceitar, mesmo porque, no mínimo, agregará conhecimento, e daqui um tempo, uma vez adquiridas outras idéias, pode voltar a analisar aquela primeira e então (mais uma vez) avaliá-la a partir daquilo que é conhecido, mas que antes não era: tornou-se. Pois certamente novas questões sempre irão surgir, e como lidamos com elas é que são elas.

Pura burrice humana: querer convencer os outros de que as nossas idéias são a verdade, que são irrefutáveis. Se nem nós sabíamos da nossa idéia antes de formulá-la (conseqüência da nossa imperfeição, que não nos permite a onisciência, ou seja, não nascemos sabendo, vamos criando conceitos aos poucos), como enxertá-la na cabeça de outra pessoa como sendo algo verdadeiro? Entendendo verdadeiro, aqui, como aquilo que é imutável e que sempre existiu, logo, que existe antes da própria pessoa.
O que é verdade para aquele rapaz de 20 anos pode não ser para aquele mesmo rapaz agora mais velho, de 40 anos, que viveu experiências que não imaginava, que forjou conceitos que não sonhava aos 20 anos. Equivocar-se é um direito. Mas não se trata de um equívoco, pois ao rapaz de 20 anos condiziam suas idéias, a diferença é se ele aceita que podem mudar, o que é deveria ser no fundo, natural, pois coisas acontecem o tempo todo sob nosso controle ou não, e dessas constantes novas experiências nascem novos conceitos.

É óbvio, mas não tão óbvio assim.

O “será-que-não-me-entende?” é bastante comum e proporciona um mal-estar tremendo, quando se insiste em “dar murro em ponta de faca”, quando convencer já não é uma estratégia, mas uma atividade frustrante. Alguns acham que mudar de idéia é algo repreensível ou mesmo vergonhoso, mas considerando que uma das coisas que movem o mundo é a dialética – há uma tese, rebatida por uma antítese resultando em uma síntese que será novamente rebatida e assim sucessivamente – parece, no mínimo interessante, pensar que a validade de uma idéia não se encerra em si, mas nas possibilidades que ela suscita. Se não houvesse oposições e apenas concordâncias, que raios de mundo seria esse em que tudo fosse conforme? Uma idéia que pode nascer do contrário de outra talvez nunca surgisse se não fosse a negação que a gerou. Imaginem quantas idéias são abortadas, quando se diz, sem pestanejar: “amém”.

Ouvir primeiro, e depois expor suas idéias, assim, é possível rearranjá-la antes, pode-se mesmo se surpreender com os argumentos apresentados e então rever todo seu cabedal de informações, pode preferir não falar, pode apenas discordar sem saber exatamente em quais pontos.

É preciso tempo. Tempo e raciocínio. Tempo, raciocínio e disposição.

As peças são colocadas. Depois de muito exercitar isso, pode até ser que se consiga prever o movimento do outro, e aí tolhe-lo ou permiti-lo, como um jogo de xadrez.
Por essas e outras é que a verdade não existe em estado puro, isolado - quer dizer, a exceção é para os seres humanos que precisam se relacionar e acreditar que conhecem-na - ela se manifesta em vários contextos, e atende a cada um deles da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é plural, então, elas vêm e vão.
Sendo a verdade plural, pergunta-se o que é certo e o que é errado e para quem o são. Mas isso já são outros quinhentos..."

(out/10)