quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O meu idioma

"Gosto como soam belas e cheias as palavras
Quando as digo, as ouço, as escrevo, as leio
Gosto da minha língua materna
Das misturas de latim, grego, tupi, português, africâner, inglês, francês
Gosto da composição: pe-de-moleque, psicologia, abóbora
Gosto das palavras
Da sonoridade de alegoria ou veraneio ou sentimento ou espelho
Gosto de entendê-las por inteiro
Ouvir o som de cada letra
Gosto da confusão boba: vislumbrar e deslumbrar
Gosto de como elas se unem, como mostram minhas origens
Como ajudam a me expressar
Como eu poderia sem elas, sentir, entender, pensar, viver?
Gosto porque não têm dono."
(nov/09)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Eu estou na varanda, e...

"...está ventando no meu rosto,
nas minhas mãos, nas minhas pernas.
Está um vento bem-vindo, está suave,
está embaraçando meus cabelos.
Gostoso.
Eu estou sentindo o mundo falando, voando e
esbarrando em mim.

...está ventando na rua,
nos prédios, nas casas, na calçada, no meio-fio.
Está ventando num homem deitado.
Está um vento frio, está embaraçando o lixo.
Inconveniente.
Vejo o homem na rua, ele está sozinho
sentindo o mundo falando, voando e
atropelando-o."
(nov/09)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vandalismo

Estava com pressa. Apertei o botão para chamar o elevador. Quando a pressa é muita, a gente tenta acelerar os acontecimentos na esperança que eles, de fato, se consumem num menor tempo. Em vista de economizar meus minutos, enfiei minha mão no bolso à procura da chave de casa. Assim que a encontrei empunhei-a deixando na posição de introdução na porta. O elevador não chegava.
Havia ao meu lado, uma parede azul que atraía loucamente minha mão para que a chave se aproximasse e a coçasse. Somado esse convite à minha impaciência, impetuosamente precipitei minha mão a centímetros da parede.
O impulso representou apenas um passatempo, a pressa quando vem à tona deixa um espaço para o desejo de não ter de fazer novamente seja lá o que for. E, intimamente, naquela situação, libertou-se o desejo escondido e ofuscado de eternizar-me. Queria, inconscientemente, de qualquer maneira, deixar fixada uma marca única, pessoal. Não cheguei a ponderar se me envaideceria ao saber que leram, viram, observaram meu feito.
Eu faria mais ou menos uma forma cheia de curvas, sem fim.
Os simbologistas, criptógrafos, jamais desvendariam o significado de tal símbolo, afinal, ele não tem nada a ser decifrado, é o simples resultado do prazer do movimento da mão sobre a parede através da chave.
Bem que eu poderia apenas assinar, com movimentos secos, rápidos, acho que ficaria mais preciso.
Não acredito que as pessoas ao subirem no elevador chegariam a ter acessos de riso, espasmos de emoção, soluços – ou ter qualquer reação – diante de qualquer figura rasgada na parede que eu produzisse. O elevador chegou.
Esqueci tudo aquilo, entrei no elevador, lembrando-me que viera. Apertei o botão do quarto andar. Mais vinte segundos até chegar na soleira da porta. Dentro do paralelepípedo oscilante, desejei ardentemente rabiscá-lo por dentro, mas concluí que ficaria esteticamente feio. Deixei de lado, saí dali e, rapidamente, destranquei a porta de casa.
(fev\09)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cru

"Sou poeta, que mais eu posso ser?
Se acredito ser somente no encontro com a liberdade
E a liberdade é criar.
É o único momento que sou para mim
E para ser, passo antes pelo aval da verdade
Como encontrar tempo para dialogar com ela?
Estou num plano – um plano que exige de mim coisas que eu não sou (ou sou, pelo menos para este plano)
Preciso parecer, preciso fingir.
Mas não me parece fingimento, pois não conheço o original;
O original é tão necessário, tão primordial, e me foi tolhido conhecê-lo.
Não é justo!
O que é justo?
Por que permitiram que eu questionasse – ou será que eu autorizei-me a tanto?
Deixar de atribuir aos outros qualquer responsabilidade parece ser o mais viável.
Eu decidi viver, eu resolvo, eu me pergunto, eu respondo.
Aos outros que nessas palavras pronunciaram-se, um pedido:
Ajudem-me a encontrar a verdade para eu me encontrar."
(jan\09)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A um amigo



"Quando foi que nos encontramos da última vez
Eu não me lembro
De todas as cenas que brotam na mente
As de nós rindo são as mais coloridas e nítidas
O tempo ilustrado de ano insiste em passar
E por causa dele, os instantes de alegria,
Confissão, desabafo, discussão, se multiplicam
E é por essa grandeza a qual corrói e tampa o passado que
Flui a leveza de fotografias e diálogos
Como poeira e, quem, de tantos anos, nunca respirou poeira?"
(jan\09)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tempo

"Peguei emprestado de Deus o tempo,
Já vinha querendo girar os ponteiros com meus próprios dedos há tempos.
Só não sei onde conseguir bateria: desde que o peguei ele parece ter cansado de passar.
Porque é isso o que ele faz, ele passa.
Ninguém sabe bem de onde nem para onde vai, pois se passa é de um lugar pro outro.
Entendi que ele se irritara com os desmandos de Deus e dos homens, não perguntaram-lhe se era mesmo o tempo feito de segundos, minutos, horas,
Não sei nem porque são chamados segundos e não primeiros.
Ele é instrumento do cosmos, e não pode ser medido. Para fins práticos e convenções, conseguiram capturá-lo e pendurar-lhe uma coleira
Ah, mas não se enganem, ele não pode ser conduzido, ele vive de nós, ele mesmo nos corrói e nos ata à terra
Deus sabe o que fazer com o tempo, o tempo sabe o que fazer com ele próprio.
Na verdade ele é um serzinho desse tamanhinho, egoísta, que se pensa dono das coisas.
Coitado do tempo!
Ele nos apressa, nos desespera, nos impõe uma porção de regras, mas não percebe que também está preso.
Aprisionaram-no numa circunferência e, dividiram-no! Outros puseram-no num tubo engraçado de vidro com areia junto!
Até lhe deram um pêndulo para ele sentir o tédio que é ser tempo, deram também pauzinhos que ficam o perseguindo insistentemente.
Coitado do tempo!
Deus o usa de um jeito, os homens de outro, e ele próprio não sabe mais para onde ir."
(nov.08)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Natural; individual; coletivo

"Beira-mar; beira-rio; beira-asfalto
Beija-flor; beija-mim; beija-todos
Status-quo; status-meo; status-uno
Copo-de-leite; copo-de-sangue; copo-de-água
Simplório; impróprio; o próprio
Girassol; gira-gira; geração
Passarinho; passatempo; passagem"
(jan\09)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sem título V

"Ah! Se eu tivesse todos os pensamentos
Coerentes e verdadeiros
Houvesse a amplitude que houvesse
Eu saberia entendê-los

Ah! Como eu queria
Que todas as minhas lágrimas viessem a escorrer
Queria ter a luz de outrora
Para enlaçar a razão à dor dos olhos

Aceitar que, como um rio, como Lavoisier
Tudo muda, tudo se transforma
Queria aprisionar o presente no cárcere de minh’alma

Sentir, como os poetas
A flecha que perpassa a carne
E revigorado, dançar na alma dos outros"
(out.08)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

CICLONHECIMENTO

"Vai chover papel e todos vão se encharcar deles. Daqui um tempo a tinta das letras e figuras vai derreter com o suor dos corpos. Até lá todo o chão estará coberto de papel e o que escorrer turvará em poesia, história, informação, conhecimento. Não haverá vigilância sanitária capaz de remover a celulose e a tinta das vias públicas e dos bueiros, ou dos ralos das moradias, ou dos rios. É que o ciclo do conhecimento é o seguinte: primeiro chove, impregna, vaza, entope, inunda e depois impregna de novo, o que não for absorvido evapora, reformula-se e chove de novo reiniciando o ciclo. Com o tempo habitua-se. Falando em tempo, está um céu nebuloso lá fora, e venta muito... acho que daqui uns poucos dias vai começar a chover."
(jan\09)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Redescobrir - Gonzaguinha

"Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia

Como um animal que sabe da floresta, perigosa
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória

Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza

Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história"

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A palavra mais bonita

"A palavra mais bonita que conheço é liberdade.
Gosto tanto dela que não sei qual seu tamanho real,
Quero muito que ela me acompanhe,
Vou colocá-la no bolso!
Sei que assim não poderei trocar de roupa, mas
E se eu não tiver outros bolsos¿
Talvez precise me trocar...
Vou pendurá-la no pescoço!
Desse jeito ela fica vulnerável, alguém pode arrancá-la (eu posso)
Ela não pode ficar acorrentada, é contra a sua natureza.
Conheci-a há pouco tempo, mas como ela me cativou!
Há alguns dias a vi num livro, outro dia numa conversa, outra vez num olhar.
Confesso que nunca a vi por completo
Só pude vê-la de relance, o pouco que vi me fez achá-la
Belíssima
Tão bela que não pode estar acompanhada.
Onde vivo só encontro fragmentos seus
E é tão generosa, deixou-me um pedacinho de si,
Disse-me que era o suficiente
Resolvi deixá-la em casa, pensei melhor,
Não queria perdê-la;
Enterrei-a na pele e a deixei ser como era: livre.
Há alguns minutos descobri que ela viajou por mim
E encontrou morada num lugar agitado, tempestuoso
Para os momentos de fúria e gozo.
Também encontrou um lugar claro com uma lâmpada problemática,
Ela gosta mesmo assim,
Para os momentos de imaginação e reflexão.
Sabe, quando a lâmpada queima, ela busca clarear o ambiente e abre meus olhos, e é quando a amo mais."
(jan\09)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sem título IV

"No largo céu um facho cai
Pude divisar dois mundos
É água que dos olhos sai
Como um poço advém do fundo

Na estrada, estava eu,
E imenso, como o firmamento.
Pouco exprimi do que é meu
Formava-se semelhante em mim, o tormento

Assim como a chuva em silêncio
Distante de mim, vislumbrava,
Notei que era só parte dum todo

O céu guardava a água como um rio
Sem querer ela vazava
Em mim sua forma era de choro."

(out\08)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Um arroubo pessimista

Tem sido difícil vislumbrar alguma perspectiva nesses últimos tempos. Essa minha doença que agora pude diagnosticar, posso vê-la agora como crônica. É que são experiências catalisadoras desse mal que me vêm acontecendo, ou melhor, que eu venho fazendo-as acontecer. Essa coisa de ler, de observar, de refletir, gera apenas dois resultados, ou você admite que cada vez menos compreende as coisas, mas persiste por alguma razão oculta a você mesmo, ou corrói o que existe de mais inoxidável em você. Alguma voz exaltada vai me dizer: "mas que disparate!", e eu: "Ei! Eu posso explicar..."
Quando se encontram duas idéias opostas a força de cada uma cancela a outra e entra-se em um impasse, não posso dizer que tais forças estejam extintas, mas sim travadas. Arrisco-me a dizer que isso é natural, o problema surge quando eu estou sendo prensado por essas forças, quando o que vejo e ouço e sinto vem violentamente contra aquilo que cultivo em minha mente (meu latifúndio fecundo - deixo essa explicação para outro dia,) contra os princípios acordados ente minha mente e eu, afinal é um trabalho de anos que temos feito, e simplesmente estão sendo humilhados, machucados. Quando percebo as atrocidades que as pessoas são capazes de fazer, sinto-me cada vez mais adoentado, e essas atrocidades nem precisam ser fatos como homens-bomba no Oriente Médio, o impacto de um comentário amargo em uma lanchonete me causa a mesma dor. Essa doença, se quer saber chama-se abalo de expectativas, nos termos mais vulgares, desilusão. Saber que as cabeças tem suas próprias idéias é maravilhoso, mas assustador também. Como esperar melhoras? Como vislumbrar um mundo mais justo, mais honesto, se não se vê o mínimo de respeito nas coisas básicas? Como esperar? Como??? Então concluo que estou doente, e na verdade eu sempre estive. Agreguei e agrego conhecimento, experiência, mas há sempre uma lacuna, e esta como disse Machado de Assis, só pode ser a falta de mim mesmo. Como me conhecer em meio a esse mar de coisas que nos rodeiam, como formar uma conduta, como entender um contexto, uma situação, uma outra pessoa? Não gosto de admitir, mas estamos numa sinuca de bico, como querer libertar as pessoas, suas mentes, sem que elas apelem para a animalidade, para o desrespeito? Como preparar todos para isso? Sei, sei, já estou fugindo da raia, me perdoe se este vômito digitado está te confundindo, ou se este texto não possui um eixo... O duro mesmo é se ver naquela prensa de idéias, e chegar a pensar que tudo está perdido.

E vem imediatamente o Renato Russo cantando: "quando tudo está perdido, sempre existe um caminho, quando tudo está perdido, sempre existe uma luz..."
Mas, saiba você que tem um bicho que vaga por mim, e esse bicho é danado de esperto, pois não deixa nunca que eu desanime. Eu sei que tudo que escrevo agora é agora, e agora é só agora, não acontece de novo.

Eu sempre soube que isso um dia chegaria, mas não imaginava que fosse tão repentinamente. Desculpe-me se não me fiz entender. Pode interpretar isso como crise existencial, como frescura, como alucinação, mas só posso garantir uma coisa: está doendo, e não posso ficar cego de dor.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Um punhado de coincidências

Longe está o que se sucede
Aos filhos surrados e de má sina do Brasil
Mãe! Gritou um deles,
Mãe! Gritaram todos
A mãe não ouviu,
Estava, por acaso, a sonhar
Apoiada na janela empoeirada
Esperando o marido futuro passar.
***
Os primogênitos estavam no solo:
Foram se juntar aos vizinhos
Para brincarem de esconder,
De tanto brincar, se perderam
E nunca mais se acharam.
***
Para os filhos do meio,
Esconder era nada:
A mãe deu-lhes o anseio.
Eles, de tanto esperar,
Dormiram na calçada.
***
Os caçulas, um dó
Os outros irmãos lhe tomaram um pião,
Depois uma boneca usada, depois um tratorzinho,
Pra vender na esquina
E comprar picolé e naftalina
***
A mãe, jovem, velha estava
E a poeira da casa toda
De tanto pesar nas teclas do piano
O fez tocar
E os bebês, sonolentos ouviam
O som
E a melodia doce e calma
Fundiu-se ao choro
***
E nesse inebriante estapafúrdio
Só escutou aquele que o queria escutar
E aquele que se queria escutado
Tombou cansado e desembestou a sonhar.
(out/08)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Convenções sociais

Dezenas de gentes, um salão.
Dezenas de músicas, um ar.
Dezenas de pés, um chão.
Dezenas de roupas brilhantes, um pra cada corpo.
Dezenas de palavras, um exagero.
Dezenas de pratos, uma delícia.
Dezenas de vozes, um tédio.
Dezenas de sorrisos, uma hipocrisia.
Dezenas de poses, uma fotografia.
Dezenas de parentes, um amigo.
Dezenas de homens, um uísque.
Dezenas de mulheres, uma dança.
Dezenas de olhares, um amor.
Dezenas de dias esperando, um sucesso.
Dezenas de dias se passaram, um fracasso.
Dezenas de brindes, um alvo.
Dezenas de apertos de mão, um imoral.
Dezenas de taças, uma trinca.
Dezenas de regras, um medo.
Dezenas de ouvidos, uma boca.
Dezenas de abraços, (uns) sinceros.
Dezenas de garçons, um obrigado.
Dezenas de luzes, um inferno.
Dezenas de nomes, uma memória.
(nov.08)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Corpo e alma

"Pra não sucumbir depois de ouvir
Depois de compreender
Depois de não haver o que falar,
O cérebro de tão bem formado não me permite
O fim imediato.
O incômodo, a ânsia, a dor só podem ter uma explicação
Para estapear minha face,
e tais sensações inimigas na forma, mas amigas na verdade
ejetam minhas virtudes,
a isso chamam evolução, crescimento,
eu não sabia. Agradeço a chance de ter em um ser operante
um cérebro para acalmar a tempestade
e um corpo real para executar a existência."
(ago\08)

Sem título III

"Dia desses compreende-se a desilusão da vida
Para suportá-la - o que nela puder projetar
Pois sim, será doce e ardida
Para então ouvi-la cantar

Dia desses descobre-se a finitude
Assim que a aceitares cairão da torre à terra
as idéias malditas e pestilentas
os momentos de agonia e solidão

O que de sublime se fez,
Quem disse? Sublime é ser gente
Antes mesmo da embriaguez

Dia desses te levarão daqui,
Sem tua anuência ou desapego
É injusto? Apenas some daqui."
(out/08)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Palíndromo

Vocês sabem não é: leia de frente pra trás e de trás pra frente...

A GRAMA É AMARGA.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sem título II

Chove, ou não,
Esfria, ou não,
Escurece, ou não,
Não é o barroquismo
Que me faz sentir
A mente é um claro,
Um escuro, é todas as cores,
É terreno livre, virgem,
É assimilação, é um infinito
Pousado sobre os ombros
Das máquinas, das células,
Das moléculas
Um não ter limite
Que por si só se mostra,
Encurralado na massa
Cerebral, decide se chove, se esfria ou se escurece.
(set/08)

Sem título

Por que se afasta tão rápido
Um pensamento?
Qual a extensão do cérebro
Para escapar para tão longe
Uma idéia?
Quem é forte o bastante
Para arrastá-lo de volta?
O tempo o leva, eu sou
Mero instrumento de passagem,
De voz, de manifestação delas
Enquanto o som do roçar do lápis no papel
Agita-se ao meu redor
As idéias ficam presas, não
Fogem, se transmitem, se
Multiplicam, se eternizam.
(set/08)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Do título

É preciso, antes de dar continuidade a este blog, esclarecer a razão do título.
Terei que dissertar acerca da espécie humana.

Muitas vezes nos deparamos uns com os outros em situações corriqueiras, e muitas dessas situações tornam-se irremediavelmente desagradáveis...
Por exemplo, num ônibus, quando ele está lotado e uma pessoa está 'deitada' ocupando uns três bancos (!) Ou quando (ainda no ônibus) as pessoas não se movem para ceder um lugar para um idoso ou uma grávida (!) Ou quando, no trânsito, um ilustre espertinho resolve 'ultrapassar' aquela fila gigante de carros pelo acostamento achando que vai se dar bem (!) Ou quando passa do horário de silêncio no condomínio e alguém fica com som alto, ou gritando, batendo cadeiras e afins (!) Ou quando num evento qualquer sempre tem aqueles que se produzem para parecer mais importantes do que os outros, e, convenhamos, uma roupa faz mesmo a gente saber se uma pessoa é do "bem ou do mal", a conclusão máxima que você poderá tirar é que têm ou não dinheiro, nem dá pra saber se são otárias em gastar com roupas de marca ou não (tudo bem vai, se você quiser pensar nisso pode pensar...), acham mesmo que a aparência traz escrito quem é quem (!) Ou quando alguém quer muito, mas muito opinar sobre um assunto mas na verdade não sabe nada sobre aquilo e acha que está arrasando só porque falou uma palavra mais elaborada (!) Ou quando alguém comete algum crime (!)
Existem diversas situações chatas não é mesmo? Pois então... É nessas horas que eu odeio a atitude das pessoas, mas como não devemos julgar sem conhecimento de causa, talvez estejam apenas com algum problema freudiano, nada absurdo.
O problema surge quando da falta de respeito, há a idéia vaga, medíocre de superioridade que trava as relações humanas, por isso expresso esse extremo pela frase: ODEIO GENTE.

Esclarecida essa sentença, vamos à próxima que é também uma impressão minha acerca da nossa espécie.
Quantas vezes já presenciamos um gesto de afeto, um carinho, um sorriso. (?) Ou quando se lê uma obra como as de Machado de Assis, Umberto Eco, Zélia Gattai, Vinícius de Morais, José Saramgo, e muitos outros, que reprsentam a criatividade e inteligência humana, em outro aspecto Mozart, Chico Buarque, Beatles, em outro ainda, Picasso, Dalí, Tarsila (?) Nem precisamos pensar nesses 'artistas', só de ver um trabalhador na rua, um professor ensinando, um nenê aprendendo a falar, uma pessoa dizendo 'desculpa!' (?) Ou conhecer uma pessoa capaz de ouvir e dar atenção a outras pessoas (?) Ou ser capaz de criar um automóvel, um lápis, uma escola, uma estrada, um cinema, uma rede de energia elétrica, um navio, um programa de computador, uma pasta de dentes, um chinelo, um alimento congelado, uma outra pessoa... (?)Ou ver alguém dançando, criando, falando, chorando, mas por puro ímpeto, sem causa aparente são coisas que gosto de definir como legítimos SERES HUMANOS.

Entendido isso, resumo-nos como um ser de dois opostos, por isso esse blog não poderá seguir nenhum padrão. O que vier à mente será aqui exibido.

Pronto, é isso que é.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Construção - [Chico Buarque]

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Pré-produção

"Escrever é a expressão livre
O expor dos sentidos
Do pensar
Não consigo embelezar um poema,
Seguir rimas e padrões que
Trancam as idéias que
A mim são difíceis de assimilar
A expressão direta me ocorre
Várias vezes
Papel e caneta, preciso deles
Próximos a mim"
(set/08)

Um, dois, três, testando...

"No início Deus criou o céu e a terra"

E nós resolvemos criar este blog, e nele ficarão registradas as insanidades que nos permeiam.

Usufruam, soltem o verbo, sejamos livres!