quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vandalismo

Estava com pressa. Apertei o botão para chamar o elevador. Quando a pressa é muita, a gente tenta acelerar os acontecimentos na esperança que eles, de fato, se consumem num menor tempo. Em vista de economizar meus minutos, enfiei minha mão no bolso à procura da chave de casa. Assim que a encontrei empunhei-a deixando na posição de introdução na porta. O elevador não chegava.
Havia ao meu lado, uma parede azul que atraía loucamente minha mão para que a chave se aproximasse e a coçasse. Somado esse convite à minha impaciência, impetuosamente precipitei minha mão a centímetros da parede.
O impulso representou apenas um passatempo, a pressa quando vem à tona deixa um espaço para o desejo de não ter de fazer novamente seja lá o que for. E, intimamente, naquela situação, libertou-se o desejo escondido e ofuscado de eternizar-me. Queria, inconscientemente, de qualquer maneira, deixar fixada uma marca única, pessoal. Não cheguei a ponderar se me envaideceria ao saber que leram, viram, observaram meu feito.
Eu faria mais ou menos uma forma cheia de curvas, sem fim.
Os simbologistas, criptógrafos, jamais desvendariam o significado de tal símbolo, afinal, ele não tem nada a ser decifrado, é o simples resultado do prazer do movimento da mão sobre a parede através da chave.
Bem que eu poderia apenas assinar, com movimentos secos, rápidos, acho que ficaria mais preciso.
Não acredito que as pessoas ao subirem no elevador chegariam a ter acessos de riso, espasmos de emoção, soluços – ou ter qualquer reação – diante de qualquer figura rasgada na parede que eu produzisse. O elevador chegou.
Esqueci tudo aquilo, entrei no elevador, lembrando-me que viera. Apertei o botão do quarto andar. Mais vinte segundos até chegar na soleira da porta. Dentro do paralelepípedo oscilante, desejei ardentemente rabiscá-lo por dentro, mas concluí que ficaria esteticamente feio. Deixei de lado, saí dali e, rapidamente, destranquei a porta de casa.
(fev\09)

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