"Peguei emprestado de Deus o tempo,
Já vinha querendo girar os ponteiros com meus próprios dedos há tempos.
Só não sei onde conseguir bateria: desde que o peguei ele parece ter cansado de passar.
Porque é isso o que ele faz, ele passa.
Ninguém sabe bem de onde nem para onde vai, pois se passa é de um lugar pro outro.
Entendi que ele se irritara com os desmandos de Deus e dos homens, não perguntaram-lhe se era mesmo o tempo feito de segundos, minutos, horas,
Não sei nem porque são chamados segundos e não primeiros.
Ele é instrumento do cosmos, e não pode ser medido. Para fins práticos e convenções, conseguiram capturá-lo e pendurar-lhe uma coleira
Ah, mas não se enganem, ele não pode ser conduzido, ele vive de nós, ele mesmo nos corrói e nos ata à terra
Deus sabe o que fazer com o tempo, o tempo sabe o que fazer com ele próprio.
Na verdade ele é um serzinho desse tamanhinho, egoísta, que se pensa dono das coisas.
Coitado do tempo!
Ele nos apressa, nos desespera, nos impõe uma porção de regras, mas não percebe que também está preso.
Aprisionaram-no numa circunferência e, dividiram-no! Outros puseram-no num tubo engraçado de vidro com areia junto!
Até lhe deram um pêndulo para ele sentir o tédio que é ser tempo, deram também pauzinhos que ficam o perseguindo insistentemente.
Coitado do tempo!
Deus o usa de um jeito, os homens de outro, e ele próprio não sabe mais para onde ir."
(nov.08)
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