epifasneiras
idéias híbridas, discursos espontâneos, expressão plural e vaga de uma mente pairante: não (chame de) arte
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Do paradoxo do apego
Sei de um lugar afastado em uma cidade do interior paulista no qual comem e dormem cerca de trinta pessoas “acima de sessenta anos”. Quando vão se recolher, elas se dividem em duas alas: a masculina e a feminina, sendo que durante o dia compartilham o pátio, a cozinha e a sala de TV da antiga casa. Mas mais do que comer e dormir – e é isso que seus familiares e parentes querem acreditar que eles fazem – sua razão de viver é esperar. Vivem clamando por atenção, saibam eles disso ou não. Há muitos que não veem pessoas com genes semelhantes há anos, não vêm filhos, não vêm irmãos, não vêm primos. Outros nem tiveram tempo de deixar uma prole solta no mundo antes de serem deixados aos cuidados de um casal munido de boa vontade e caridade para que cozinhem para eles, troquem suas roupas, lavem seus objetos pessoais, entretenham suas mentes. Afinal, é por causa delas, das mentes irregulares, que eles foram parar ali.
Há cerca de quatro meses, uma mulher soube de suas existências. Não pensou duas vezes e se propôs a arrecadar, comprar e levar mantimentos àquelas pessoas além-pós-extra-marginalizadas. Não bastasse ausência de infra-estrutura, ausência de políticas públicas, ausência de comida, há a mais dolorosa e habitual ausência de afeto. Certamente criaram-se vínculos entre aqueles que vivem sob aquele mesmo teto, mas jamais saberemos quão sólidos podem ser, mas sabemos que podem ser. Uma vez que não mais cumprem um modelo ideal de “felicidade no seio familiar”, isso não descarta a possibilidade de haver trocas e estabelecimento de amizades. Não é porque não seguem o padrão imaginado, que são menos legítimos.
Amigos podem ser qualquer pessoa. Só precisam ter a chance de sê-lo.
A mulher parece que virou amiga de alguns deles. E isso se deu de forma curiosa e não sem surpresas. Vamos a um exercício de lógica: Ela contribui com seu sustento material. Eles recebem e agradecem. Ela vai hoje, semana que vem, na outra e assim por diante. Eles a recebem, agradecem e a esperam.Ela vai e começa a ouvir as suas histórias. Eles a recebem, agradecem, a afagam e a esperam. Ela vai e tira fotos. Eles a recebem, agradecem, a afagam, a esperam e a consideram. Ela agora é sinônimo de mantimentos, atenção e carinho. Eles se apegam.
Uma dessas pessoas pediu-lhe que a levasse para morar consigo. Ela disse que não poderia, pois sua casa era pequena e tinha criança pequena. Outra guardou sua foto na gaveta porque pensou que ela não voltaria mais para visitá-los, como todos os outros fizeram.
Desse desfecho sem ponto final nos deparamos com uma controversa questão: será que apenas as relações materiais salvaguardam as pessoas de se envolverem demais umas com as outras? Se não fosse o (mínimo) convívio, o afeto não se desenvolveria, expectativas não seriam criadas, frustrações seriam impedidas, mal-estares seriam evitados, lágrimas seriam guardadas.
Não deveria haver mal em se envolver demais, faz bem, é saudável, aquece os corações. Não deveria haver mal no afeto.
Ela poderia começar a levar os mantimentos, deixá-los na porta e ir embora silenciosamente.
Mas, não. Não pode ser isso. É contraproducente.
Limitar o contato humano às necessidades materiais é como anular suas capacidades mais sublimes, tudo seria facilmente mecanizado, aboliríamos os sentimentos!
Talvez a forma como o afeto era correspondido extrapolasse os anseios de quem o desejava e de quem o fornecia, gerando uma profunda tristeza, que, por sua vez, é insolúvel através de palavras, presentes, quiçá de qualquer forma de afeto conhecida pelos seres humanos.
sábado, 26 de novembro de 2011
De andanças (parte I)
terça-feira, 10 de maio de 2011
De baratas e mini-saias
"Havia barulho, bastante. Ronco de engrenagens, ranger de dentes e línguas, uma sinfonia urbana sem harmonia musical e em plena harmonia ocasional.
Eu já estava torpe, depois de trinta minutos sentado no mesmo assento, sacolejando para todos os ângulos possíveis que meu corpo até desconhecia. Dessa vez, eu não estava do lado da janela e sim do corredor, por isso, minha atenção que seria exclusiva da janela para fora, agora era forçosamente tragada para o interior do veículo e para as inúmeras micro-ocorrências que se davam entre aqueles bancos e naquela estreita passarela emborrachada e suja sob pares ímpares de pés.
Uma vez que eu estava do lado oposto ao da janela, uma boa razão me impedia de contemplar os prédios, as pessoas, as árvores, os carros, as pessoas, o asfalto, as lojas, o céu, as nuvens, as pessoas através da turva mancha de sebo e suor de cabeças invisíveis que outrora repousaram no vidro: um senhorzinho estava ali depositado.
Vestido de modo simples, do mesmo modo que já foram vistos dezenas iguais a ele somente naquele dia, com uma camisa bege, uma calça cinza com as barras enegrecidas pelo constante roçar do chão e de seus pés, uma sacola que aniversariara mais de 10 anos descansava sobre seu colo. Parecia cansado, retornando de uma jornada estafante de trabalho, parecia mesmo que ele nem estava ali.
Enquanto eu, mergulhado em meus pensamentos, apenas via as coisas e seus movimentos, não as enxergava, nada atinha minha atenção. Mas, quem diria! Foi o senhorzinho que se mostrou vivo e operante quando virou ligeiramente a cabeça em minha direção – mas não diretamente para mim – e então comecei a enxergar o que se passava: se ele olhou, deveria ser algo interessante, algo que destoasse do cenário fosco de até então, deveria ser algo que se destacasse tanto a ponto de retirar todos de seu náufrago reflexivo e os levar à deriva.
Eram as pernas de uma mulher. Mas não só, eram as pernas de uma mulata alta, magra, mas não só, eram pernas compridas e bem delineadas que desciam de uma minissaia, mas não só, eram pernas que queriam ficar de pé, brilhando, no glamoroso tapete negro de borracha, no centro do ônibus, atraindo a atenção de todos.
As pernas levavam fatalmente os que a fitavam a olhar para cima, e ir subindo até seu rosto, quando então, poderiam avaliar a dona daquele descalabro. No fundo, pouco importavam seus traços, sua ascendência, sua profissão, seus medos, seus desejos, seu nome – aquela mulher eram aquelas pernas e aquelas pernas eram dos olhos de quem as vissem.
Eu vi – obviamente - mas não me demorei nelas por muito tempo, voltei a contemplar o assoalho burlesco.
É engraçado como a atenção pode ser desviada, mas não abolida e, por vezes ela nos toma por completo e se volta inteiramente para outra coisa. Foi o que me ocorreu quando, instantes depois de já ter desprendido minha atenção da nova passageira, eu vi uma barata no tapete. No mesmo tapete em que pisavam pernas comuns, pernas atraentes, e pernas peludas de baratas. Fui tomado por um asco apreensivo: a barata poderia, sorrateiramente correr até meu tênis e eu, que não a sentiria, seria invadido pela sua astúcia, feiúra e contaminação, caso ela resolvesse escalar as minhas pernas!
Nada mais havia naqueles minutos subseqüentes além da barata. Eu só podia segui-la com meus olhos temerosos, ela estava ali afinal, tão veloz, tão viva, tão chamativa. Não era possível que ninguém mais a tivesse notado. Nem mesmo o senhorzinho ao meu lado, que tinha, de certa forma o mesmo campo de visão que eu, parecia se incomodar com aquela barata desfilando no meio do ônibus.
Não demorou muito para que chegasse meu ponto de descida: não vi mais nada, levantei, apertei o botão que pede por mim, gentilmente ao motorista, para poder sair dali. Virei-me para o fundo do ônibus, onde havia outra porta e, sem olhar para trás, por ali escapei."
Eu já estava torpe, depois de trinta minutos sentado no mesmo assento, sacolejando para todos os ângulos possíveis que meu corpo até desconhecia. Dessa vez, eu não estava do lado da janela e sim do corredor, por isso, minha atenção que seria exclusiva da janela para fora, agora era forçosamente tragada para o interior do veículo e para as inúmeras micro-ocorrências que se davam entre aqueles bancos e naquela estreita passarela emborrachada e suja sob pares ímpares de pés.
Uma vez que eu estava do lado oposto ao da janela, uma boa razão me impedia de contemplar os prédios, as pessoas, as árvores, os carros, as pessoas, o asfalto, as lojas, o céu, as nuvens, as pessoas através da turva mancha de sebo e suor de cabeças invisíveis que outrora repousaram no vidro: um senhorzinho estava ali depositado.
Vestido de modo simples, do mesmo modo que já foram vistos dezenas iguais a ele somente naquele dia, com uma camisa bege, uma calça cinza com as barras enegrecidas pelo constante roçar do chão e de seus pés, uma sacola que aniversariara mais de 10 anos descansava sobre seu colo. Parecia cansado, retornando de uma jornada estafante de trabalho, parecia mesmo que ele nem estava ali.
Enquanto eu, mergulhado em meus pensamentos, apenas via as coisas e seus movimentos, não as enxergava, nada atinha minha atenção. Mas, quem diria! Foi o senhorzinho que se mostrou vivo e operante quando virou ligeiramente a cabeça em minha direção – mas não diretamente para mim – e então comecei a enxergar o que se passava: se ele olhou, deveria ser algo interessante, algo que destoasse do cenário fosco de até então, deveria ser algo que se destacasse tanto a ponto de retirar todos de seu náufrago reflexivo e os levar à deriva.
Eram as pernas de uma mulher. Mas não só, eram as pernas de uma mulata alta, magra, mas não só, eram pernas compridas e bem delineadas que desciam de uma minissaia, mas não só, eram pernas que queriam ficar de pé, brilhando, no glamoroso tapete negro de borracha, no centro do ônibus, atraindo a atenção de todos.
As pernas levavam fatalmente os que a fitavam a olhar para cima, e ir subindo até seu rosto, quando então, poderiam avaliar a dona daquele descalabro. No fundo, pouco importavam seus traços, sua ascendência, sua profissão, seus medos, seus desejos, seu nome – aquela mulher eram aquelas pernas e aquelas pernas eram dos olhos de quem as vissem.
Eu vi – obviamente - mas não me demorei nelas por muito tempo, voltei a contemplar o assoalho burlesco.
É engraçado como a atenção pode ser desviada, mas não abolida e, por vezes ela nos toma por completo e se volta inteiramente para outra coisa. Foi o que me ocorreu quando, instantes depois de já ter desprendido minha atenção da nova passageira, eu vi uma barata no tapete. No mesmo tapete em que pisavam pernas comuns, pernas atraentes, e pernas peludas de baratas. Fui tomado por um asco apreensivo: a barata poderia, sorrateiramente correr até meu tênis e eu, que não a sentiria, seria invadido pela sua astúcia, feiúra e contaminação, caso ela resolvesse escalar as minhas pernas!
Nada mais havia naqueles minutos subseqüentes além da barata. Eu só podia segui-la com meus olhos temerosos, ela estava ali afinal, tão veloz, tão viva, tão chamativa. Não era possível que ninguém mais a tivesse notado. Nem mesmo o senhorzinho ao meu lado, que tinha, de certa forma o mesmo campo de visão que eu, parecia se incomodar com aquela barata desfilando no meio do ônibus.
Não demorou muito para que chegasse meu ponto de descida: não vi mais nada, levantei, apertei o botão que pede por mim, gentilmente ao motorista, para poder sair dali. Virei-me para o fundo do ônibus, onde havia outra porta e, sem olhar para trás, por ali escapei."
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Do (des)propósito do novo título
Quando, há tempos, eu comecei este blog, o projeto-piloto previa que fosse sobre vários assuntos do mundo, alguns poemas, outras reflexões engajadas, outros textos críticos. Admiro, de verdade, pessoas que têm sempre o que escrever, e discutem, e expressam opiniões, e se tornam especialistas nos mais diversos assuntos importantes deste mundo. Eu queria ser assim. Mas não sei falar das idéias dos outros, só das minhas – e olhe lá.
Quando estou “por aí”, pelo mundo, eu vejo, penso, zil coisas, e por vezes não tenho tempo, paciência, ou mesmo caneta e papel pra escrever (problema que resolvi colocando uma caneta e um tantinho de papel em cada bolsa minha). Às vezes são idéias geniais, outras vezes são abjetas. Mas são idéias!
[Nunca jogue fora uma idéia, alguém pode nunca ter pensado nela, ou ninguém pode ter pensado nela – alguém e ninguém são entes perigosos, e insistem em ficar por perto: cuidado com eles.] Bem, chega de bancar a bula de idéias.
Então, as minhas, ora soam como grandes revelações, ora como pequenos rompantes supostamente descartáveis, vulgo: idiotices. Eu venho aqui por diversas razões, para (tentar) compartilhar meus pensamentos, minhas insanidades, não para auto-promoção – mesmo porque: o que está no contrato mesmo, senhor diretor? Ah, sim! Nada de mercadológico.
Ok.
Só idéias que me parecem merecedoras de serem escritas, que eu necessito escrever.. não adianta só pensar, só falar, só fingir que não existem, eu tenho a aguda ânsia de escrever, é quase uma sanha que não cessa. Desde há alguns poucos anos. Não quero que parem nunca. É um jeito de eu me lembrar de mim, de me preservar hoje (e hoje não é sempre hoje! Vejam só que perigo se o perdermos!!!), de olhar para a minha e só minha história e saber que caminho trilhei, que vias deixei de pegar, a quais atalhos renunciei.
Eu não sei escrever bonito também. Não sei rimar, nem fazer soneto ou colocar métrica nas minhas palavras (é... depois de um tempo você as usa tanto que as toma para si), nem fazer comparações mirabolantes. Não é preciso que alguém leia isto, julgue, aprove ou mesmo goste (!), eu finjo que alguém lê porque assim exercito minhas capacidades cognitivas, organizo minhas idéias, crio relações entre elas. Tento deixar claro e límpido o que em mim está tão obscuro e emaranhado, só isso.
Eu só quero desafogar eu mesma, e não acho que isso seja diagnosticável como solidão- depressão-misantropia, “coisa de quem não tem amigos” – pode até ser isso também, mas o propósito é apenas ver minha criação em outro lugar que não em mim, um diálogo mudo, eu falo, meu interlocutor é o papel escrito por mim, e isso é o bastante. Me alivia, me torna mais leve, me liberta.
Quando estou “por aí”, pelo mundo, eu vejo, penso, zil coisas, e por vezes não tenho tempo, paciência, ou mesmo caneta e papel pra escrever (problema que resolvi colocando uma caneta e um tantinho de papel em cada bolsa minha). Às vezes são idéias geniais, outras vezes são abjetas. Mas são idéias!
[Nunca jogue fora uma idéia, alguém pode nunca ter pensado nela, ou ninguém pode ter pensado nela – alguém e ninguém são entes perigosos, e insistem em ficar por perto: cuidado com eles.] Bem, chega de bancar a bula de idéias.
Então, as minhas, ora soam como grandes revelações, ora como pequenos rompantes supostamente descartáveis, vulgo: idiotices. Eu venho aqui por diversas razões, para (tentar) compartilhar meus pensamentos, minhas insanidades, não para auto-promoção – mesmo porque: o que está no contrato mesmo, senhor diretor? Ah, sim! Nada de mercadológico.
Ok.
Só idéias que me parecem merecedoras de serem escritas, que eu necessito escrever.. não adianta só pensar, só falar, só fingir que não existem, eu tenho a aguda ânsia de escrever, é quase uma sanha que não cessa. Desde há alguns poucos anos. Não quero que parem nunca. É um jeito de eu me lembrar de mim, de me preservar hoje (e hoje não é sempre hoje! Vejam só que perigo se o perdermos!!!), de olhar para a minha e só minha história e saber que caminho trilhei, que vias deixei de pegar, a quais atalhos renunciei.
Eu não sei escrever bonito também. Não sei rimar, nem fazer soneto ou colocar métrica nas minhas palavras (é... depois de um tempo você as usa tanto que as toma para si), nem fazer comparações mirabolantes. Não é preciso que alguém leia isto, julgue, aprove ou mesmo goste (!), eu finjo que alguém lê porque assim exercito minhas capacidades cognitivas, organizo minhas idéias, crio relações entre elas. Tento deixar claro e límpido o que em mim está tão obscuro e emaranhado, só isso.
Eu só quero desafogar eu mesma, e não acho que isso seja diagnosticável como solidão- depressão-misantropia, “coisa de quem não tem amigos” – pode até ser isso também, mas o propósito é apenas ver minha criação em outro lugar que não em mim, um diálogo mudo, eu falo, meu interlocutor é o papel escrito por mim, e isso é o bastante. Me alivia, me torna mais leve, me liberta.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Verdade é que não existe uma única verdade
"Analisar o novo a partir do que já é conhecido pode resultar em uma indigestão, uma insatisfação. Isso é típico de seres humanos, coisa difícil mesmo de mudar. Mas, uma vez aberto às novas idéias, fica mais fácil assimilar e aceitar, mesmo porque, no mínimo, agregará conhecimento, e daqui um tempo, uma vez adquiridas outras idéias, pode voltar a analisar aquela primeira e então (mais uma vez) avaliá-la a partir daquilo que é conhecido, mas que antes não era: tornou-se. Pois certamente novas questões sempre irão surgir, e como lidamos com elas é que são elas.
Pura burrice humana: querer convencer os outros de que as nossas idéias são a verdade, que são irrefutáveis. Se nem nós sabíamos da nossa idéia antes de formulá-la (conseqüência da nossa imperfeição, que não nos permite a onisciência, ou seja, não nascemos sabendo, vamos criando conceitos aos poucos), como enxertá-la na cabeça de outra pessoa como sendo algo verdadeiro? Entendendo verdadeiro, aqui, como aquilo que é imutável e que sempre existiu, logo, que existe antes da própria pessoa.
O que é verdade para aquele rapaz de 20 anos pode não ser para aquele mesmo rapaz agora mais velho, de 40 anos, que viveu experiências que não imaginava, que forjou conceitos que não sonhava aos 20 anos. Equivocar-se é um direito. Mas não se trata de um equívoco, pois ao rapaz de 20 anos condiziam suas idéias, a diferença é se ele aceita que podem mudar, o que é deveria ser no fundo, natural, pois coisas acontecem o tempo todo sob nosso controle ou não, e dessas constantes novas experiências nascem novos conceitos.
É óbvio, mas não tão óbvio assim.
O “será-que-não-me-entende?” é bastante comum e proporciona um mal-estar tremendo, quando se insiste em “dar murro em ponta de faca”, quando convencer já não é uma estratégia, mas uma atividade frustrante. Alguns acham que mudar de idéia é algo repreensível ou mesmo vergonhoso, mas considerando que uma das coisas que movem o mundo é a dialética – há uma tese, rebatida por uma antítese resultando em uma síntese que será novamente rebatida e assim sucessivamente – parece, no mínimo interessante, pensar que a validade de uma idéia não se encerra em si, mas nas possibilidades que ela suscita. Se não houvesse oposições e apenas concordâncias, que raios de mundo seria esse em que tudo fosse conforme? Uma idéia que pode nascer do contrário de outra talvez nunca surgisse se não fosse a negação que a gerou. Imaginem quantas idéias são abortadas, quando se diz, sem pestanejar: “amém”.
Ouvir primeiro, e depois expor suas idéias, assim, é possível rearranjá-la antes, pode-se mesmo se surpreender com os argumentos apresentados e então rever todo seu cabedal de informações, pode preferir não falar, pode apenas discordar sem saber exatamente em quais pontos.
É preciso tempo. Tempo e raciocínio. Tempo, raciocínio e disposição.
As peças são colocadas. Depois de muito exercitar isso, pode até ser que se consiga prever o movimento do outro, e aí tolhe-lo ou permiti-lo, como um jogo de xadrez.
Por essas e outras é que a verdade não existe em estado puro, isolado - quer dizer, a exceção é para os seres humanos que precisam se relacionar e acreditar que conhecem-na - ela se manifesta em vários contextos, e atende a cada um deles da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é plural, então, elas vêm e vão.
Sendo a verdade plural, pergunta-se o que é certo e o que é errado e para quem o são. Mas isso já são outros quinhentos..."
(out/10)
Pura burrice humana: querer convencer os outros de que as nossas idéias são a verdade, que são irrefutáveis. Se nem nós sabíamos da nossa idéia antes de formulá-la (conseqüência da nossa imperfeição, que não nos permite a onisciência, ou seja, não nascemos sabendo, vamos criando conceitos aos poucos), como enxertá-la na cabeça de outra pessoa como sendo algo verdadeiro? Entendendo verdadeiro, aqui, como aquilo que é imutável e que sempre existiu, logo, que existe antes da própria pessoa.
O que é verdade para aquele rapaz de 20 anos pode não ser para aquele mesmo rapaz agora mais velho, de 40 anos, que viveu experiências que não imaginava, que forjou conceitos que não sonhava aos 20 anos. Equivocar-se é um direito. Mas não se trata de um equívoco, pois ao rapaz de 20 anos condiziam suas idéias, a diferença é se ele aceita que podem mudar, o que é deveria ser no fundo, natural, pois coisas acontecem o tempo todo sob nosso controle ou não, e dessas constantes novas experiências nascem novos conceitos.
É óbvio, mas não tão óbvio assim.
O “será-que-não-me-entende?” é bastante comum e proporciona um mal-estar tremendo, quando se insiste em “dar murro em ponta de faca”, quando convencer já não é uma estratégia, mas uma atividade frustrante. Alguns acham que mudar de idéia é algo repreensível ou mesmo vergonhoso, mas considerando que uma das coisas que movem o mundo é a dialética – há uma tese, rebatida por uma antítese resultando em uma síntese que será novamente rebatida e assim sucessivamente – parece, no mínimo interessante, pensar que a validade de uma idéia não se encerra em si, mas nas possibilidades que ela suscita. Se não houvesse oposições e apenas concordâncias, que raios de mundo seria esse em que tudo fosse conforme? Uma idéia que pode nascer do contrário de outra talvez nunca surgisse se não fosse a negação que a gerou. Imaginem quantas idéias são abortadas, quando se diz, sem pestanejar: “amém”.
Ouvir primeiro, e depois expor suas idéias, assim, é possível rearranjá-la antes, pode-se mesmo se surpreender com os argumentos apresentados e então rever todo seu cabedal de informações, pode preferir não falar, pode apenas discordar sem saber exatamente em quais pontos.
É preciso tempo. Tempo e raciocínio. Tempo, raciocínio e disposição.
As peças são colocadas. Depois de muito exercitar isso, pode até ser que se consiga prever o movimento do outro, e aí tolhe-lo ou permiti-lo, como um jogo de xadrez.
Por essas e outras é que a verdade não existe em estado puro, isolado - quer dizer, a exceção é para os seres humanos que precisam se relacionar e acreditar que conhecem-na - ela se manifesta em vários contextos, e atende a cada um deles da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é plural, então, elas vêm e vão.
Sendo a verdade plural, pergunta-se o que é certo e o que é errado e para quem o são. Mas isso já são outros quinhentos..."
(out/10)
domingo, 24 de outubro de 2010
Nômades
E há tanto que se tem revolvido dentro de mim
Que soltas as idéias vagam pelo meu interior
Às vezes parecem sedentarizar-se nos meandros de minha mente
Noutras, afrouxam as rédeas e escapam a-rumadas
Irrupções e erupções vertem tal qual o ritmo dos dias
É sol que nasce no meu oriente
É lua que adormece no meu ocidente
O rodopio que me eleva e desconserta, o incômodo que me apraz
Há aqueles valentes e astutos que me roubam a atenção
que me fazem admirar bestificada o mundo
É possível perceber?
São pensamentos fortes e indomáveis - ariscos
que querem fugir, correr, enfrentar o mundo
Estouros epifânicos, miúdos intempestivos
de descoberta do mundo
Trago tragando para dentro o que contemplo e experimento
Digeri-los apenas não posso... são tão autônomos - diabretes
Mesmo os mansos e conhecidos, velhos amigos,
me surpeeendem - gostam mesmo é de me escapulir e conhecer os novos inquilinos
É possível perceber?
Quando se chocam, se assustam e despertam uma sonolenta e furiosa emoção
- Em tempos de êxodo e migração como estes
ando meio manco e comovido
Meu desarranjo vai se abrandar mas,
acho mesmo que agora é este o meu novo jeito de caminhar.
Que soltas as idéias vagam pelo meu interior
Às vezes parecem sedentarizar-se nos meandros de minha mente
Noutras, afrouxam as rédeas e escapam a-rumadas
Irrupções e erupções vertem tal qual o ritmo dos dias
É sol que nasce no meu oriente
É lua que adormece no meu ocidente
O rodopio que me eleva e desconserta, o incômodo que me apraz
Há aqueles valentes e astutos que me roubam a atenção
que me fazem admirar bestificada o mundo
É possível perceber?
São pensamentos fortes e indomáveis - ariscos
que querem fugir, correr, enfrentar o mundo
Estouros epifânicos, miúdos intempestivos
de descoberta do mundo
Trago tragando para dentro o que contemplo e experimento
Digeri-los apenas não posso... são tão autônomos - diabretes
Mesmo os mansos e conhecidos, velhos amigos,
me surpeeendem - gostam mesmo é de me escapulir e conhecer os novos inquilinos
É possível perceber?
Quando se chocam, se assustam e despertam uma sonolenta e furiosa emoção
- Em tempos de êxodo e migração como estes
ando meio manco e comovido
Meu desarranjo vai se abrandar mas,
acho mesmo que agora é este o meu novo jeito de caminhar.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
De um pelo outro
"Não me lembro o dia em que foi, uma terça ou quarta-feira, quando ela chegou em casa à noitinha com um breve sorriso que trazia em si uma curva de preocupação. A semana estava se passando morosa e pesada como um rolo-compressor por cima dela: os dias estavam sendo difíceis.
Assim que cruzou a soleira da porta e a trancou, despejou a bolsa no sofá enquanto enroscava um pé no outro para tirar os sapatos e então começar a relaxar. Quando os pés, quentes, tocaram o assoalho frio, subiu-lhe instantaneamente um torpor leve, era como se nada mais aconchegante houvesse no mundo do que aquele contato macio entre a sola do pé o solo.
Entrou no banheiro, despiu-se e girou a torneira do chuveiro para a temperatura da água se estabilizar, enquanto recapitulava alguns momentos do seu dia. A água batia-lhe crocante nos ombros, lavava-se, e os pés começaram a inchar. O torpor ampliou-se e migrou para os olhos, fechando-os.
O mundo parou por alguns segundos, a única coisa que a fazia viva naquele momento era o ouvir da água se estatelando no chão, sentir o calor dela escorrendo-lhe pelo corpo, e os pés sustentando aquela cena toda.
Desligou.
Terminado o asseio foi para a cozinha providenciar algo que lhe preenchesse aquele vazio, que saciasse aquela fome aguda e subissem os níveis de serotonina em seu organismo estafado. Foi o que fez. Sentou-se para ler e exercitar o punho, enquanto recobrava o universo que deixara suspenso por alguns minutos.
Não muito tempo depois de ter começado a estudar, seu telefone móvel tocou, ela atendeu e era a voz dele que trafegava em ondas pelos fios transmissores, do outro lado da linha, do outro lado do país, do outro lado da mente dela. O início da conversa foi o de praxe: saudações carinhosas, perguntas corriqueiras e sistematizadas seguidas de respostas não inesperadas. Até que a voz dela se alterou, enchendo o quarto e escapando pelo vão da porta, pela fechadura, pela fresta da janela: queria justificar-se. E para defender sua posição, diante da intransigente cobrança vinda de lá, ela falou-lhe cerca de sete vezes porquê não ligara.
A discussão mergulhou na noite, e ambos pareciam presos, imantados pelos ouvidos aos comunicadores já melados de suor das mãos que os seguravam, denunciando o estado exaltado em que se encontravam os interlocutores.
Sem prévio aviso, não fosse aquela longa pausa silenciosa e repentina - a voz dela saiu da garganta, mas agora estava fraca e embargada, talvez o esforço de persuasão tivesse passado então para os olhos (mas ele não a via), seu corpo se concentrava em uma só coisa: fazê-la chorar.
A voz masculina a convencera de que ela era culpada, que o lapso de memória que a acometera naquele dia não importava, que sua mente agitada e ocupada não era suficiente para que ela esquecesse. Ele chegou a dizer-lhe que sua "falha" era indigna, concluiu que ela não o amava simplesmente.
Ela, mesmo dolorida de tantas lágrimas, argumentava que pensava nele sim, que não o esquecera, que o amava. Mas desses três verbos, o primeiro era esporádico, o segundo verdadeiro - ela confessou o crime - o terceiro, ininterrupto.
Dando-se por satisfeito, ele a perdoou, depois, falaram despedidas e trocaram palavras carinhosas, como para remediar o turbilhão que se passara ou para cumprir as vias justas de um diálogo ou ainda, para certificarem-se do que eles não queriam nem podiam esquecer."
(set/10)
Assim que cruzou a soleira da porta e a trancou, despejou a bolsa no sofá enquanto enroscava um pé no outro para tirar os sapatos e então começar a relaxar. Quando os pés, quentes, tocaram o assoalho frio, subiu-lhe instantaneamente um torpor leve, era como se nada mais aconchegante houvesse no mundo do que aquele contato macio entre a sola do pé o solo.
Entrou no banheiro, despiu-se e girou a torneira do chuveiro para a temperatura da água se estabilizar, enquanto recapitulava alguns momentos do seu dia. A água batia-lhe crocante nos ombros, lavava-se, e os pés começaram a inchar. O torpor ampliou-se e migrou para os olhos, fechando-os.
O mundo parou por alguns segundos, a única coisa que a fazia viva naquele momento era o ouvir da água se estatelando no chão, sentir o calor dela escorrendo-lhe pelo corpo, e os pés sustentando aquela cena toda.
Desligou.
Terminado o asseio foi para a cozinha providenciar algo que lhe preenchesse aquele vazio, que saciasse aquela fome aguda e subissem os níveis de serotonina em seu organismo estafado. Foi o que fez. Sentou-se para ler e exercitar o punho, enquanto recobrava o universo que deixara suspenso por alguns minutos.
Não muito tempo depois de ter começado a estudar, seu telefone móvel tocou, ela atendeu e era a voz dele que trafegava em ondas pelos fios transmissores, do outro lado da linha, do outro lado do país, do outro lado da mente dela. O início da conversa foi o de praxe: saudações carinhosas, perguntas corriqueiras e sistematizadas seguidas de respostas não inesperadas. Até que a voz dela se alterou, enchendo o quarto e escapando pelo vão da porta, pela fechadura, pela fresta da janela: queria justificar-se. E para defender sua posição, diante da intransigente cobrança vinda de lá, ela falou-lhe cerca de sete vezes porquê não ligara.
A discussão mergulhou na noite, e ambos pareciam presos, imantados pelos ouvidos aos comunicadores já melados de suor das mãos que os seguravam, denunciando o estado exaltado em que se encontravam os interlocutores.
Sem prévio aviso, não fosse aquela longa pausa silenciosa e repentina - a voz dela saiu da garganta, mas agora estava fraca e embargada, talvez o esforço de persuasão tivesse passado então para os olhos (mas ele não a via), seu corpo se concentrava em uma só coisa: fazê-la chorar.
A voz masculina a convencera de que ela era culpada, que o lapso de memória que a acometera naquele dia não importava, que sua mente agitada e ocupada não era suficiente para que ela esquecesse. Ele chegou a dizer-lhe que sua "falha" era indigna, concluiu que ela não o amava simplesmente.
Ela, mesmo dolorida de tantas lágrimas, argumentava que pensava nele sim, que não o esquecera, que o amava. Mas desses três verbos, o primeiro era esporádico, o segundo verdadeiro - ela confessou o crime - o terceiro, ininterrupto.
Dando-se por satisfeito, ele a perdoou, depois, falaram despedidas e trocaram palavras carinhosas, como para remediar o turbilhão que se passara ou para cumprir as vias justas de um diálogo ou ainda, para certificarem-se do que eles não queriam nem podiam esquecer."
(set/10)
Assinar:
Comentários (Atom)
