sábado, 26 de novembro de 2011

De andanças (parte I)




Quando vi essa cena, achei que valia a pena registrá-la: "I did not notice the passers-by, and they did not notice me" [Moment of surrender - U2]

terça-feira, 10 de maio de 2011

De baratas e mini-saias

"Havia barulho, bastante. Ronco de engrenagens, ranger de dentes e línguas, uma sinfonia urbana sem harmonia musical e em plena harmonia ocasional.
Eu já estava torpe, depois de trinta minutos sentado no mesmo assento, sacolejando para todos os ângulos possíveis que meu corpo até desconhecia. Dessa vez, eu não estava do lado da janela e sim do corredor, por isso, minha atenção que seria exclusiva da janela para fora, agora era forçosamente tragada para o interior do veículo e para as inúmeras micro-ocorrências que se davam entre aqueles bancos e naquela estreita passarela emborrachada e suja sob pares ímpares de pés.

Uma vez que eu estava do lado oposto ao da janela, uma boa razão me impedia de contemplar os prédios, as pessoas, as árvores, os carros, as pessoas, o asfalto, as lojas, o céu, as nuvens, as pessoas através da turva mancha de sebo e suor de cabeças invisíveis que outrora repousaram no vidro: um senhorzinho estava ali depositado.

Vestido de modo simples, do mesmo modo que já foram vistos dezenas iguais a ele somente naquele dia, com uma camisa bege, uma calça cinza com as barras enegrecidas pelo constante roçar do chão e de seus pés, uma sacola que aniversariara mais de 10 anos descansava sobre seu colo. Parecia cansado, retornando de uma jornada estafante de trabalho, parecia mesmo que ele nem estava ali.

Enquanto eu, mergulhado em meus pensamentos, apenas via as coisas e seus movimentos, não as enxergava, nada atinha minha atenção. Mas, quem diria! Foi o senhorzinho que se mostrou vivo e operante quando virou ligeiramente a cabeça em minha direção – mas não diretamente para mim – e então comecei a enxergar o que se passava: se ele olhou, deveria ser algo interessante, algo que destoasse do cenário fosco de até então, deveria ser algo que se destacasse tanto a ponto de retirar todos de seu náufrago reflexivo e os levar à deriva.

Eram as pernas de uma mulher. Mas não só, eram as pernas de uma mulata alta, magra, mas não só, eram pernas compridas e bem delineadas que desciam de uma minissaia, mas não só, eram pernas que queriam ficar de pé, brilhando, no glamoroso tapete negro de borracha, no centro do ônibus, atraindo a atenção de todos.

As pernas levavam fatalmente os que a fitavam a olhar para cima, e ir subindo até seu rosto, quando então, poderiam avaliar a dona daquele descalabro. No fundo, pouco importavam seus traços, sua ascendência, sua profissão, seus medos, seus desejos, seu nome – aquela mulher eram aquelas pernas e aquelas pernas eram dos olhos de quem as vissem.

Eu vi – obviamente - mas não me demorei nelas por muito tempo, voltei a contemplar o assoalho burlesco.

É engraçado como a atenção pode ser desviada, mas não abolida e, por vezes ela nos toma por completo e se volta inteiramente para outra coisa. Foi o que me ocorreu quando, instantes depois de já ter desprendido minha atenção da nova passageira, eu vi uma barata no tapete. No mesmo tapete em que pisavam pernas comuns, pernas atraentes, e pernas peludas de baratas. Fui tomado por um asco apreensivo: a barata poderia, sorrateiramente correr até meu tênis e eu, que não a sentiria, seria invadido pela sua astúcia, feiúra e contaminação, caso ela resolvesse escalar as minhas pernas!

Nada mais havia naqueles minutos subseqüentes além da barata. Eu só podia segui-la com meus olhos temerosos, ela estava ali afinal, tão veloz, tão viva, tão chamativa. Não era possível que ninguém mais a tivesse notado. Nem mesmo o senhorzinho ao meu lado, que tinha, de certa forma o mesmo campo de visão que eu, parecia se incomodar com aquela barata desfilando no meio do ônibus.

Não demorou muito para que chegasse meu ponto de descida: não vi mais nada, levantei, apertei o botão que pede por mim, gentilmente ao motorista, para poder sair dali. Virei-me para o fundo do ônibus, onde havia outra porta e, sem olhar para trás, por ali escapei."

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Do (des)propósito do novo título

Quando, há tempos, eu comecei este blog, o projeto-piloto previa que fosse sobre vários assuntos do mundo, alguns poemas, outras reflexões engajadas, outros textos críticos. Admiro, de verdade, pessoas que têm sempre o que escrever, e discutem, e expressam opiniões, e se tornam especialistas nos mais diversos assuntos importantes deste mundo. Eu queria ser assim. Mas não sei falar das idéias dos outros, só das minhas – e olhe lá.

Quando estou “por aí”, pelo mundo, eu vejo, penso, zil coisas, e por vezes não tenho tempo, paciência, ou mesmo caneta e papel pra escrever (problema que resolvi colocando uma caneta e um tantinho de papel em cada bolsa minha). Às vezes são idéias geniais, outras vezes são abjetas. Mas são idéias!
[Nunca jogue fora uma idéia, alguém pode nunca ter pensado nela, ou ninguém pode ter pensado nela – alguém e ninguém são entes perigosos, e insistem em ficar por perto: cuidado com eles.] Bem, chega de bancar a bula de idéias.

Então, as minhas, ora soam como grandes revelações, ora como pequenos rompantes supostamente descartáveis, vulgo: idiotices. Eu venho aqui por diversas razões, para (tentar) compartilhar meus pensamentos, minhas insanidades, não para auto-promoção – mesmo porque: o que está no contrato mesmo, senhor diretor? Ah, sim! Nada de mercadológico.

Ok.

Só idéias que me parecem merecedoras de serem escritas, que eu necessito escrever.. não adianta só pensar, só falar, só fingir que não existem, eu tenho a aguda ânsia de escrever, é quase uma sanha que não cessa. Desde há alguns poucos anos. Não quero que parem nunca. É um jeito de eu me lembrar de mim, de me preservar hoje (e hoje não é sempre hoje! Vejam só que perigo se o perdermos!!!), de olhar para a minha e só minha história e saber que caminho trilhei, que vias deixei de pegar, a quais atalhos renunciei.

Eu não sei escrever bonito também. Não sei rimar, nem fazer soneto ou colocar métrica nas minhas palavras (é... depois de um tempo você as usa tanto que as toma para si), nem fazer comparações mirabolantes. Não é preciso que alguém leia isto, julgue, aprove ou mesmo goste (!), eu finjo que alguém lê porque assim exercito minhas capacidades cognitivas, organizo minhas idéias, crio relações entre elas. Tento deixar claro e límpido o que em mim está tão obscuro e emaranhado, só isso.

Eu só quero desafogar eu mesma, e não acho que isso seja diagnosticável como solidão- depressão-misantropia, “coisa de quem não tem amigos” – pode até ser isso também, mas o propósito é apenas ver minha criação em outro lugar que não em mim, um diálogo mudo, eu falo, meu interlocutor é o papel escrito por mim, e isso é o bastante. Me alivia, me torna mais leve, me liberta.