quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Um punhado de coincidências

Longe está o que se sucede
Aos filhos surrados e de má sina do Brasil
Mãe! Gritou um deles,
Mãe! Gritaram todos
A mãe não ouviu,
Estava, por acaso, a sonhar
Apoiada na janela empoeirada
Esperando o marido futuro passar.
***
Os primogênitos estavam no solo:
Foram se juntar aos vizinhos
Para brincarem de esconder,
De tanto brincar, se perderam
E nunca mais se acharam.
***
Para os filhos do meio,
Esconder era nada:
A mãe deu-lhes o anseio.
Eles, de tanto esperar,
Dormiram na calçada.
***
Os caçulas, um dó
Os outros irmãos lhe tomaram um pião,
Depois uma boneca usada, depois um tratorzinho,
Pra vender na esquina
E comprar picolé e naftalina
***
A mãe, jovem, velha estava
E a poeira da casa toda
De tanto pesar nas teclas do piano
O fez tocar
E os bebês, sonolentos ouviam
O som
E a melodia doce e calma
Fundiu-se ao choro
***
E nesse inebriante estapafúrdio
Só escutou aquele que o queria escutar
E aquele que se queria escutado
Tombou cansado e desembestou a sonhar.
(out/08)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Convenções sociais

Dezenas de gentes, um salão.
Dezenas de músicas, um ar.
Dezenas de pés, um chão.
Dezenas de roupas brilhantes, um pra cada corpo.
Dezenas de palavras, um exagero.
Dezenas de pratos, uma delícia.
Dezenas de vozes, um tédio.
Dezenas de sorrisos, uma hipocrisia.
Dezenas de poses, uma fotografia.
Dezenas de parentes, um amigo.
Dezenas de homens, um uísque.
Dezenas de mulheres, uma dança.
Dezenas de olhares, um amor.
Dezenas de dias esperando, um sucesso.
Dezenas de dias se passaram, um fracasso.
Dezenas de brindes, um alvo.
Dezenas de apertos de mão, um imoral.
Dezenas de taças, uma trinca.
Dezenas de regras, um medo.
Dezenas de ouvidos, uma boca.
Dezenas de abraços, (uns) sinceros.
Dezenas de garçons, um obrigado.
Dezenas de luzes, um inferno.
Dezenas de nomes, uma memória.
(nov.08)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Corpo e alma

"Pra não sucumbir depois de ouvir
Depois de compreender
Depois de não haver o que falar,
O cérebro de tão bem formado não me permite
O fim imediato.
O incômodo, a ânsia, a dor só podem ter uma explicação
Para estapear minha face,
e tais sensações inimigas na forma, mas amigas na verdade
ejetam minhas virtudes,
a isso chamam evolução, crescimento,
eu não sabia. Agradeço a chance de ter em um ser operante
um cérebro para acalmar a tempestade
e um corpo real para executar a existência."
(ago\08)

Sem título III

"Dia desses compreende-se a desilusão da vida
Para suportá-la - o que nela puder projetar
Pois sim, será doce e ardida
Para então ouvi-la cantar

Dia desses descobre-se a finitude
Assim que a aceitares cairão da torre à terra
as idéias malditas e pestilentas
os momentos de agonia e solidão

O que de sublime se fez,
Quem disse? Sublime é ser gente
Antes mesmo da embriaguez

Dia desses te levarão daqui,
Sem tua anuência ou desapego
É injusto? Apenas some daqui."
(out/08)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Palíndromo

Vocês sabem não é: leia de frente pra trás e de trás pra frente...

A GRAMA É AMARGA.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sem título II

Chove, ou não,
Esfria, ou não,
Escurece, ou não,
Não é o barroquismo
Que me faz sentir
A mente é um claro,
Um escuro, é todas as cores,
É terreno livre, virgem,
É assimilação, é um infinito
Pousado sobre os ombros
Das máquinas, das células,
Das moléculas
Um não ter limite
Que por si só se mostra,
Encurralado na massa
Cerebral, decide se chove, se esfria ou se escurece.
(set/08)

Sem título

Por que se afasta tão rápido
Um pensamento?
Qual a extensão do cérebro
Para escapar para tão longe
Uma idéia?
Quem é forte o bastante
Para arrastá-lo de volta?
O tempo o leva, eu sou
Mero instrumento de passagem,
De voz, de manifestação delas
Enquanto o som do roçar do lápis no papel
Agita-se ao meu redor
As idéias ficam presas, não
Fogem, se transmitem, se
Multiplicam, se eternizam.
(set/08)