domingo, 30 de maio de 2010

"Acalanto do seringueiro" - Mário de Andrade

"Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
"Sagrados" como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme ...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme..."

domingo, 23 de maio de 2010

Livre-associação

O que você quer?
Insuportável escárnio oculto,
Voluptuoso amadorismo velado,
Insensato consciente vivaz,
Pungente estupidez desejada,
Deleitosa rapidez encontrada,
Forte impulso ensandecido,
Falsa censura perturbada,
Fugaz empreendimento açoitado,
Ansiosa aventura rasgada,
Inventiva visão deturpada,
Inóspito terreno habitado,
Vago raciocínio lamentado,
Odioso querer negado,
Possível levante amaciado,
Incômodo permanente recente,
Horizonte de contradições, mar de sabedoria, poço de envenenamento, rio de barqueiros,
O que você quer?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Conto confesso

Na época dos meus dezoito anos, já morava longe dos meus pais havia um ano, me estabeleci numa cidade grande a que chamam São Paulo. Me virava muito bem, obrigado. Honestamente, diferente dos meus amigos, eu não sentia a distância de uma meia via estadual a que eu me encontrava da minha família. É claro que sentia saudades, gostava dos finais de semana em que ia visitá-los, o difícil não era ir, era voltar: é que me dava uma preguiça de retornar à rotina, ao corre-corre frenético da cidade, à vigilância do meu próprio corpo, à medonha e fria vulnerabilidade, às discussões infindáveis que eu tinha que ouvir nas aulas, às conversas insossas e pseudo-profundas, à saudade que eu sentiria do aconchego. Eu nunca tive problemas familiares de teor alcoólico ou de violência, talvez de intransigência. Vim pra cá pensando em ser bacana com as pessoas, mas sei que carregava semblante austero e levemente hostil. Ora, hostil por hostil, as pessoas são quando têm medo, elas estão sempre se defendendo, acham que tudo e todos podem e querem invadir seu império que é nada menos que elas mesmas.

O que me motivava a voltar era o gostinho da liberdade, do “eu faço, eu resolvo”. Eram os amigos com os quais eu ria, chorava, compartilhava idéias e sentimentos, gostava de sentir que estava investindo em mim, que agora era a hora de eu me colocar no mundo, de me posicionar e dizer: “Oi, eu existo, o que posso fazer partindo desse pressuposto?”. Sei que tinha as mais belas intenções, estava fruta recém-colhida do pé.

Eu nunca quis admitir, mas... sabe, eu tinha a nítida esperança de que encontraria alguém que me compreendesse neste mundo, me aceitasse e gostasse de mim do jeito que eu era. Mês sim, mês não, trimestre sim, trimestre não, eu me apaixonava. Tudo bem, pode parecer paradoxal e desconexo (como este conto) e talvez seja mesmo, mas era assim que eu me sentia.

Fosse quem fosse, eu sempre esperava encontrá-lo, numa rua, numa escada, numa lanchonete, numa avenida movimentada, eu sei que ele estaria lá, só precisava trombar com ele. Falar, ora, eu falava quando mas não o quanto era possível, depois de vê-lo sempre achava que algo ficara faltando, de alguma maneira meu cérebro guardava todos os detalhes, tudo era muito calculado, todos os gestos e as palavras, mas era sempre tão rápido que eu achava que havia espontaneidade e sinceridade.
Teve um dia que fui entregar não lembro o quê nas mãos de um deles, e as minhas além de suarem frio, ainda me denunciavam (pelo menos eu assim pensava) tremendo. Veja só que infame: tremendo. De frio? De medo? De amor? (eu ria quando pensava nisso, e depois, chorava, metaforicamente, é claro. Eu nunca chorei por eles. Mentira. Uma vez chorei, não precisava muito eu já me condenava à angústia. Culpava os hormônios, ou minha santa e demoníaca incapacidade de conquista, na pior das hipóteses eu odiava minha falta de criatividade. Eu não chorava por ninguém, chorava de raiva de mim).

Algumas coisas na vida, a gente aprende a abominar, mas isso não significa que eu não passasse ou convivesse com elas: eu detestava passar vontade, quer dizer, me isentar de algo que na realidade eu bem queria fazer. Por conta disso, uma vez, de repente, encontrei um deles num corredor, de longe não o reconhecera, à meia-distância eu o vira, mas fingira não ver, e nos encontramos, um beijo rápido em um lado da face de cada um, um breve toque no ombro mais próximo, um singelo: “Oi, tudo bem?” e engatava um papo-furado qualquer que não era nada mais que palavras boiando no ar. Eu me concentrava no seu rosto, queria olhar tanto para memorizá-lo com o máximo de detalhes, mas sempre compondo um todo coerente, aquele todo que uma vez me agradara e me levara a imiscuir-me nessa prosa e nessa busca não sei bem do quê. Eu ficara mesmo cego para os lados, ficara com o cérebro cego, só conseguia tatear com os olhos aquela figura que tinha os seus no mesmo horizonte dos meus. Lembro-me bem que mergulhei naquele castanho, não havia nada que me pudesse tirar de lá, eu só queria ficar lá, sem planejar para onde iria depois. Até que ele me expulsou, quando disse algo que socialmente eu deveria interpretar como um fim de conversa, um adeus barato e doloroso foi o que o ouvi dizer.
Não acho possível que ele não tenha percebido esse passeio todo que fiz nele, não tenha sentido nos meus olhos, tudo o que passava na minha cabeça, que tudo o que eu queria mesmo, era ele. Só ele. Minha mente estava tão focada que não pude prosseguir, havia um obstáculo, alguma noite antes de dormir eu consertaria aquele episódio.

Para mim era límpido e notório o interesse, mas até hoje não sei se era de verdade, chego a pensar que foi só um rompante interno, não pude externá-lo. Por quê? Ah, eu me pergunto: por quê? Consegui manter a conversa superficial, mas de bom entendimento, só não falei o que eu realmente queria falar. Por quê?

Sei bem que escrevendo isso, não está consumada minha veleidade juvenil. O dia que encontrei um alguém e não apenas encontrei por encontrar, como se encontra uma parede ou uma porção de folhas secas na rua foi... muito curioso. Mas este caso eu conto em uma outra vez.

domingo, 21 de março de 2010

Fenômeno meteoro(i)lógico

"Era branco, naquela vasta alvura
eu poderia adentrar lançado
Eu poderia ficar ali todo o tempo que passou
e ainda vai passar por este mundo
Seria capaz de nunca mais fechar os olhos
só para poder contemplar
sem perder um momento sequer
aquela opaca, densa brancura
Foi sem querer.
eu apenas ouvi o barulhinho afável,
virei-me para a janela e vi aquela senhora turva
espessa e fluida
enternecida numa claridade desconcertante
***
Na janela havia dedos do sol, foi arrebatador:
eu estive na Terra, naquela cidade, naquela tarde, naquele instante e pude ver
eu vi
não sei se verei novamente, mas não é preciso,
hoje estou com sorte.
Foi de repente que um vento soprou gargalhando e levou-a embora,
desfê-la diante dos meus olhos
dissipou-a.
O burburinho calou e agora ouço uma risada sádica,
o vento tomou seu lugar,
as cores voltaram.
Mas o sol, impassível no seu distante trono, continua a adentrar minha janela."
(mar/10)

quarta-feira, 17 de março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sem título VI

"Passou um guarda que me julgou suspeito
só passou, passou e olhou.
Mais à frente um casal aos beijos
O guarda passou e não os olhou.
Algumas pernas vêm e vão,
nenhuma dela fica.
Às minhas costas os carros rodam,
à minha frente uma sombra fina,
Eu não sei mais se estou aqui."

sábado, 30 de janeiro de 2010

Crônica de festa de escolinha

Na escolinha, noite de apresentação. Os portões só abririam às 19:30, 19:00 é hora de os desavisados chegarem e o porteiro dizer-lhes que só abrirá dali a meia hora. Ficam sentados nos banquinhos esperando, observando tricotando.

Homens e mulheres chegando, mais e mais crianças, um ou outro adolescente - desprovidos da mágica máscara da paciência ou da anuência, uns entediados, outros observando e comentando, sob risos - tios, avós, parentes das crianças-show.
Um casal distinto, bem vestido, pára e olha de modo perpendicular (de cima para baixo) as pessoas à sua volta afinal, eles vieram numa carruagem de abóbora cheia de “glitter”, por isso aquele olhar desdenhoso e típico dos que têm sangue azul e sobrenome conhecido na pequena cidade.

Outro casal passa com os filhos, e repete o gesto.
Mais outro, e outro, e assim sucessivamente.
Talvez 1% de quem estivesse ali na calçada não se encaixasse no padrão exigido, não seguisse o ISO da sociedade, ou não tivesse sobrenome conhecido. Adivinha para onde convergiam os olhares “elitóides”? Exato. Para o 1%. Mas não porque estivessem chamativos, é que estavam pisando em território nobre, ainda mais com roupas simples, inadequadas para aquele contexto. Já falei, é que não tinham sobrenome adequado.

Muitos deles se conheciam, estalos de beijo pra cá, apertos de mão pra lá, sorrisos duros pra todos os lados. E a conversa rolava:
- Que carro!
- Que bolsa! Quanto pagou?
- Que cabelo! Onde arranjou?
- Que pele! Em que viagem?
- Que marido! – ops, isso foi um pensamento ; sabe como é né, uns conhecem mais e melhor os maridos e esposas do que os próprios maridos e esposas.
- Que gentalha por aqui hoje, hein! – outro pensamento, esse, geral.

Bateu 19:30.

A nata, como sempre, ansiosa para sobressair do bule começou a se agitar para entrar na escolinha.
Suas abóboras fecharam a rua, dali a ralé não passaria. Tudo bem, estavam seguros.
Sem perder a pose, ou o salto alto ou o “Rolex”, o gado transpassou a porteira. Hora de se acomodar nos bancos para assistir à apresentação.
Burburinhos, risadas, mais cumprimentos , mais hipocrisia, mais alegria! E passos, e “toc-tocs”, rumo aos assentos.
A diretora pegou o microfone e pediu-lhes que, educadamente, se apertassem um pouco mais para que outras pessoas (retardatários) se fixassem em seus lugares.
Dez minutos depois, todas as “Colcci”, “Dolce & Gabana”,” Diesel”, ”Lacoste”, “Victor Hugo”, “Louis Vouilton”, “Opera Rock” estavam cobrindo corpos iguais bem sentados.

E mais burburinho.

Mais cinco minutos até começar o silêncio, este é claro pedido educadamente pela diretora. Afinal todos ali são bem educados, civilizados e sabem quando é hora de ficarem quietos, de pararem de empurrar, de sorrirem, de aplaudir. Saídos da mesma forma, se reconhecem, se respeitam, se amam. A etiqueta sempre falando mais alto.
Começa o espetáculo, crianças cantando, dançando, recitando textos, uma superficial profundidade colorida, válida; todas as crianças pintadas e fantasiadas para incorporar uma idéia. Uma bela mensagem, um tema rico, pouca assimilação: a elite veio bater cartão e só. Prestigiar os filhos também, é claro.
Três quartos do que as crianças disseram, virou foto, um quarto foi absorvido. A escola fez um excelente trabalho naquele ano introduziu nas crianças a “decoreba”, que maravilha!

Para finalizar, um agradecimento emocionado, sincero, a todos os presentes e uma frase para semear nas roupas ali sentadas e nas pessoas também uma consciência: o ideal primário daquela noite.
Que noite!
Que dó!
As crianças mal sabiam do que falavam ali, mal sabiam da decência e civilidade dos pais, mal sabiam que representam o futuro do país, mal sabiam que a maioria das pessoas ferve o leite, côa a nata e joga fora.
(nov\08)