quarta-feira, 28 de abril de 2010

Conto confesso

Na época dos meus dezoito anos, já morava longe dos meus pais havia um ano, me estabeleci numa cidade grande a que chamam São Paulo. Me virava muito bem, obrigado. Honestamente, diferente dos meus amigos, eu não sentia a distância de uma meia via estadual a que eu me encontrava da minha família. É claro que sentia saudades, gostava dos finais de semana em que ia visitá-los, o difícil não era ir, era voltar: é que me dava uma preguiça de retornar à rotina, ao corre-corre frenético da cidade, à vigilância do meu próprio corpo, à medonha e fria vulnerabilidade, às discussões infindáveis que eu tinha que ouvir nas aulas, às conversas insossas e pseudo-profundas, à saudade que eu sentiria do aconchego. Eu nunca tive problemas familiares de teor alcoólico ou de violência, talvez de intransigência. Vim pra cá pensando em ser bacana com as pessoas, mas sei que carregava semblante austero e levemente hostil. Ora, hostil por hostil, as pessoas são quando têm medo, elas estão sempre se defendendo, acham que tudo e todos podem e querem invadir seu império que é nada menos que elas mesmas.

O que me motivava a voltar era o gostinho da liberdade, do “eu faço, eu resolvo”. Eram os amigos com os quais eu ria, chorava, compartilhava idéias e sentimentos, gostava de sentir que estava investindo em mim, que agora era a hora de eu me colocar no mundo, de me posicionar e dizer: “Oi, eu existo, o que posso fazer partindo desse pressuposto?”. Sei que tinha as mais belas intenções, estava fruta recém-colhida do pé.

Eu nunca quis admitir, mas... sabe, eu tinha a nítida esperança de que encontraria alguém que me compreendesse neste mundo, me aceitasse e gostasse de mim do jeito que eu era. Mês sim, mês não, trimestre sim, trimestre não, eu me apaixonava. Tudo bem, pode parecer paradoxal e desconexo (como este conto) e talvez seja mesmo, mas era assim que eu me sentia.

Fosse quem fosse, eu sempre esperava encontrá-lo, numa rua, numa escada, numa lanchonete, numa avenida movimentada, eu sei que ele estaria lá, só precisava trombar com ele. Falar, ora, eu falava quando mas não o quanto era possível, depois de vê-lo sempre achava que algo ficara faltando, de alguma maneira meu cérebro guardava todos os detalhes, tudo era muito calculado, todos os gestos e as palavras, mas era sempre tão rápido que eu achava que havia espontaneidade e sinceridade.
Teve um dia que fui entregar não lembro o quê nas mãos de um deles, e as minhas além de suarem frio, ainda me denunciavam (pelo menos eu assim pensava) tremendo. Veja só que infame: tremendo. De frio? De medo? De amor? (eu ria quando pensava nisso, e depois, chorava, metaforicamente, é claro. Eu nunca chorei por eles. Mentira. Uma vez chorei, não precisava muito eu já me condenava à angústia. Culpava os hormônios, ou minha santa e demoníaca incapacidade de conquista, na pior das hipóteses eu odiava minha falta de criatividade. Eu não chorava por ninguém, chorava de raiva de mim).

Algumas coisas na vida, a gente aprende a abominar, mas isso não significa que eu não passasse ou convivesse com elas: eu detestava passar vontade, quer dizer, me isentar de algo que na realidade eu bem queria fazer. Por conta disso, uma vez, de repente, encontrei um deles num corredor, de longe não o reconhecera, à meia-distância eu o vira, mas fingira não ver, e nos encontramos, um beijo rápido em um lado da face de cada um, um breve toque no ombro mais próximo, um singelo: “Oi, tudo bem?” e engatava um papo-furado qualquer que não era nada mais que palavras boiando no ar. Eu me concentrava no seu rosto, queria olhar tanto para memorizá-lo com o máximo de detalhes, mas sempre compondo um todo coerente, aquele todo que uma vez me agradara e me levara a imiscuir-me nessa prosa e nessa busca não sei bem do quê. Eu ficara mesmo cego para os lados, ficara com o cérebro cego, só conseguia tatear com os olhos aquela figura que tinha os seus no mesmo horizonte dos meus. Lembro-me bem que mergulhei naquele castanho, não havia nada que me pudesse tirar de lá, eu só queria ficar lá, sem planejar para onde iria depois. Até que ele me expulsou, quando disse algo que socialmente eu deveria interpretar como um fim de conversa, um adeus barato e doloroso foi o que o ouvi dizer.
Não acho possível que ele não tenha percebido esse passeio todo que fiz nele, não tenha sentido nos meus olhos, tudo o que passava na minha cabeça, que tudo o que eu queria mesmo, era ele. Só ele. Minha mente estava tão focada que não pude prosseguir, havia um obstáculo, alguma noite antes de dormir eu consertaria aquele episódio.

Para mim era límpido e notório o interesse, mas até hoje não sei se era de verdade, chego a pensar que foi só um rompante interno, não pude externá-lo. Por quê? Ah, eu me pergunto: por quê? Consegui manter a conversa superficial, mas de bom entendimento, só não falei o que eu realmente queria falar. Por quê?

Sei bem que escrevendo isso, não está consumada minha veleidade juvenil. O dia que encontrei um alguém e não apenas encontrei por encontrar, como se encontra uma parede ou uma porção de folhas secas na rua foi... muito curioso. Mas este caso eu conto em uma outra vez.

2 comentários:

  1. O texto é realmente lindo.um papo-furado profundo. porem, eu sinto um certo receio. Um je n'ai sais qua. A profundidade permitida nele - reflexo do teor? Mas uma pergunta: Nao seria cedo demais para navegar na sua "juventude"? Afinal voce nao eh tao velha assim. Nao existe nada mais para acrescentar a esse capitulo da sua vida, a ponto de trata-lo como fechado?
    Adoro seus escritos, voce sabe. Eu sempre volto pra ler mais. Mas sinto que existem outras coisas na sua cabeca e eu adoraria saber o q....

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  2. È na literatura que encontramos os melhores amigos, nossos irmãos espirituais.

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