idéias híbridas, discursos espontâneos, expressão plural e vaga de uma mente pairante: não (chame de) arte
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Do paradoxo do apego
Sei de um lugar afastado em uma cidade do interior paulista no qual comem e dormem cerca de trinta pessoas “acima de sessenta anos”. Quando vão se recolher, elas se dividem em duas alas: a masculina e a feminina, sendo que durante o dia compartilham o pátio, a cozinha e a sala de TV da antiga casa. Mas mais do que comer e dormir – e é isso que seus familiares e parentes querem acreditar que eles fazem – sua razão de viver é esperar. Vivem clamando por atenção, saibam eles disso ou não. Há muitos que não veem pessoas com genes semelhantes há anos, não vêm filhos, não vêm irmãos, não vêm primos. Outros nem tiveram tempo de deixar uma prole solta no mundo antes de serem deixados aos cuidados de um casal munido de boa vontade e caridade para que cozinhem para eles, troquem suas roupas, lavem seus objetos pessoais, entretenham suas mentes. Afinal, é por causa delas, das mentes irregulares, que eles foram parar ali.
Há cerca de quatro meses, uma mulher soube de suas existências. Não pensou duas vezes e se propôs a arrecadar, comprar e levar mantimentos àquelas pessoas além-pós-extra-marginalizadas. Não bastasse ausência de infra-estrutura, ausência de políticas públicas, ausência de comida, há a mais dolorosa e habitual ausência de afeto. Certamente criaram-se vínculos entre aqueles que vivem sob aquele mesmo teto, mas jamais saberemos quão sólidos podem ser, mas sabemos que podem ser. Uma vez que não mais cumprem um modelo ideal de “felicidade no seio familiar”, isso não descarta a possibilidade de haver trocas e estabelecimento de amizades. Não é porque não seguem o padrão imaginado, que são menos legítimos.
Amigos podem ser qualquer pessoa. Só precisam ter a chance de sê-lo.
A mulher parece que virou amiga de alguns deles. E isso se deu de forma curiosa e não sem surpresas. Vamos a um exercício de lógica: Ela contribui com seu sustento material. Eles recebem e agradecem. Ela vai hoje, semana que vem, na outra e assim por diante. Eles a recebem, agradecem e a esperam.Ela vai e começa a ouvir as suas histórias. Eles a recebem, agradecem, a afagam e a esperam. Ela vai e tira fotos. Eles a recebem, agradecem, a afagam, a esperam e a consideram. Ela agora é sinônimo de mantimentos, atenção e carinho. Eles se apegam.
Uma dessas pessoas pediu-lhe que a levasse para morar consigo. Ela disse que não poderia, pois sua casa era pequena e tinha criança pequena. Outra guardou sua foto na gaveta porque pensou que ela não voltaria mais para visitá-los, como todos os outros fizeram.
Desse desfecho sem ponto final nos deparamos com uma controversa questão: será que apenas as relações materiais salvaguardam as pessoas de se envolverem demais umas com as outras? Se não fosse o (mínimo) convívio, o afeto não se desenvolveria, expectativas não seriam criadas, frustrações seriam impedidas, mal-estares seriam evitados, lágrimas seriam guardadas.
Não deveria haver mal em se envolver demais, faz bem, é saudável, aquece os corações. Não deveria haver mal no afeto.
Ela poderia começar a levar os mantimentos, deixá-los na porta e ir embora silenciosamente.
Mas, não. Não pode ser isso. É contraproducente.
Limitar o contato humano às necessidades materiais é como anular suas capacidades mais sublimes, tudo seria facilmente mecanizado, aboliríamos os sentimentos!
Talvez a forma como o afeto era correspondido extrapolasse os anseios de quem o desejava e de quem o fornecia, gerando uma profunda tristeza, que, por sua vez, é insolúvel através de palavras, presentes, quiçá de qualquer forma de afeto conhecida pelos seres humanos.
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Doação, hoje e sempre.... não há bem maior !
ResponderExcluir*.*
ResponderExcluirOlá VIVIANE.
ResponderExcluirSou seu mais novo seguidor.
Estou lhe convidando para conhecer meus blogs:
HUMOR EM TEXTOS
FALANDO SÉRIO
COMO ERA FÁCIL ,FAZER SEXO
FOTOFALADA.
Estarei sempre por aqui e espero podermos fazer uma parceria virtual mútua, através dos nossos blogues.
Um abração carioca.