terça-feira, 10 de maio de 2011

De baratas e mini-saias

"Havia barulho, bastante. Ronco de engrenagens, ranger de dentes e línguas, uma sinfonia urbana sem harmonia musical e em plena harmonia ocasional.
Eu já estava torpe, depois de trinta minutos sentado no mesmo assento, sacolejando para todos os ângulos possíveis que meu corpo até desconhecia. Dessa vez, eu não estava do lado da janela e sim do corredor, por isso, minha atenção que seria exclusiva da janela para fora, agora era forçosamente tragada para o interior do veículo e para as inúmeras micro-ocorrências que se davam entre aqueles bancos e naquela estreita passarela emborrachada e suja sob pares ímpares de pés.

Uma vez que eu estava do lado oposto ao da janela, uma boa razão me impedia de contemplar os prédios, as pessoas, as árvores, os carros, as pessoas, o asfalto, as lojas, o céu, as nuvens, as pessoas através da turva mancha de sebo e suor de cabeças invisíveis que outrora repousaram no vidro: um senhorzinho estava ali depositado.

Vestido de modo simples, do mesmo modo que já foram vistos dezenas iguais a ele somente naquele dia, com uma camisa bege, uma calça cinza com as barras enegrecidas pelo constante roçar do chão e de seus pés, uma sacola que aniversariara mais de 10 anos descansava sobre seu colo. Parecia cansado, retornando de uma jornada estafante de trabalho, parecia mesmo que ele nem estava ali.

Enquanto eu, mergulhado em meus pensamentos, apenas via as coisas e seus movimentos, não as enxergava, nada atinha minha atenção. Mas, quem diria! Foi o senhorzinho que se mostrou vivo e operante quando virou ligeiramente a cabeça em minha direção – mas não diretamente para mim – e então comecei a enxergar o que se passava: se ele olhou, deveria ser algo interessante, algo que destoasse do cenário fosco de até então, deveria ser algo que se destacasse tanto a ponto de retirar todos de seu náufrago reflexivo e os levar à deriva.

Eram as pernas de uma mulher. Mas não só, eram as pernas de uma mulata alta, magra, mas não só, eram pernas compridas e bem delineadas que desciam de uma minissaia, mas não só, eram pernas que queriam ficar de pé, brilhando, no glamoroso tapete negro de borracha, no centro do ônibus, atraindo a atenção de todos.

As pernas levavam fatalmente os que a fitavam a olhar para cima, e ir subindo até seu rosto, quando então, poderiam avaliar a dona daquele descalabro. No fundo, pouco importavam seus traços, sua ascendência, sua profissão, seus medos, seus desejos, seu nome – aquela mulher eram aquelas pernas e aquelas pernas eram dos olhos de quem as vissem.

Eu vi – obviamente - mas não me demorei nelas por muito tempo, voltei a contemplar o assoalho burlesco.

É engraçado como a atenção pode ser desviada, mas não abolida e, por vezes ela nos toma por completo e se volta inteiramente para outra coisa. Foi o que me ocorreu quando, instantes depois de já ter desprendido minha atenção da nova passageira, eu vi uma barata no tapete. No mesmo tapete em que pisavam pernas comuns, pernas atraentes, e pernas peludas de baratas. Fui tomado por um asco apreensivo: a barata poderia, sorrateiramente correr até meu tênis e eu, que não a sentiria, seria invadido pela sua astúcia, feiúra e contaminação, caso ela resolvesse escalar as minhas pernas!

Nada mais havia naqueles minutos subseqüentes além da barata. Eu só podia segui-la com meus olhos temerosos, ela estava ali afinal, tão veloz, tão viva, tão chamativa. Não era possível que ninguém mais a tivesse notado. Nem mesmo o senhorzinho ao meu lado, que tinha, de certa forma o mesmo campo de visão que eu, parecia se incomodar com aquela barata desfilando no meio do ônibus.

Não demorou muito para que chegasse meu ponto de descida: não vi mais nada, levantei, apertei o botão que pede por mim, gentilmente ao motorista, para poder sair dali. Virei-me para o fundo do ônibus, onde havia outra porta e, sem olhar para trás, por ali escapei."

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Do (des)propósito do novo título

Quando, há tempos, eu comecei este blog, o projeto-piloto previa que fosse sobre vários assuntos do mundo, alguns poemas, outras reflexões engajadas, outros textos críticos. Admiro, de verdade, pessoas que têm sempre o que escrever, e discutem, e expressam opiniões, e se tornam especialistas nos mais diversos assuntos importantes deste mundo. Eu queria ser assim. Mas não sei falar das idéias dos outros, só das minhas – e olhe lá.

Quando estou “por aí”, pelo mundo, eu vejo, penso, zil coisas, e por vezes não tenho tempo, paciência, ou mesmo caneta e papel pra escrever (problema que resolvi colocando uma caneta e um tantinho de papel em cada bolsa minha). Às vezes são idéias geniais, outras vezes são abjetas. Mas são idéias!
[Nunca jogue fora uma idéia, alguém pode nunca ter pensado nela, ou ninguém pode ter pensado nela – alguém e ninguém são entes perigosos, e insistem em ficar por perto: cuidado com eles.] Bem, chega de bancar a bula de idéias.

Então, as minhas, ora soam como grandes revelações, ora como pequenos rompantes supostamente descartáveis, vulgo: idiotices. Eu venho aqui por diversas razões, para (tentar) compartilhar meus pensamentos, minhas insanidades, não para auto-promoção – mesmo porque: o que está no contrato mesmo, senhor diretor? Ah, sim! Nada de mercadológico.

Ok.

Só idéias que me parecem merecedoras de serem escritas, que eu necessito escrever.. não adianta só pensar, só falar, só fingir que não existem, eu tenho a aguda ânsia de escrever, é quase uma sanha que não cessa. Desde há alguns poucos anos. Não quero que parem nunca. É um jeito de eu me lembrar de mim, de me preservar hoje (e hoje não é sempre hoje! Vejam só que perigo se o perdermos!!!), de olhar para a minha e só minha história e saber que caminho trilhei, que vias deixei de pegar, a quais atalhos renunciei.

Eu não sei escrever bonito também. Não sei rimar, nem fazer soneto ou colocar métrica nas minhas palavras (é... depois de um tempo você as usa tanto que as toma para si), nem fazer comparações mirabolantes. Não é preciso que alguém leia isto, julgue, aprove ou mesmo goste (!), eu finjo que alguém lê porque assim exercito minhas capacidades cognitivas, organizo minhas idéias, crio relações entre elas. Tento deixar claro e límpido o que em mim está tão obscuro e emaranhado, só isso.

Eu só quero desafogar eu mesma, e não acho que isso seja diagnosticável como solidão- depressão-misantropia, “coisa de quem não tem amigos” – pode até ser isso também, mas o propósito é apenas ver minha criação em outro lugar que não em mim, um diálogo mudo, eu falo, meu interlocutor é o papel escrito por mim, e isso é o bastante. Me alivia, me torna mais leve, me liberta.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Verdade é que não existe uma única verdade

"Analisar o novo a partir do que já é conhecido pode resultar em uma indigestão, uma insatisfação. Isso é típico de seres humanos, coisa difícil mesmo de mudar. Mas, uma vez aberto às novas idéias, fica mais fácil assimilar e aceitar, mesmo porque, no mínimo, agregará conhecimento, e daqui um tempo, uma vez adquiridas outras idéias, pode voltar a analisar aquela primeira e então (mais uma vez) avaliá-la a partir daquilo que é conhecido, mas que antes não era: tornou-se. Pois certamente novas questões sempre irão surgir, e como lidamos com elas é que são elas.

Pura burrice humana: querer convencer os outros de que as nossas idéias são a verdade, que são irrefutáveis. Se nem nós sabíamos da nossa idéia antes de formulá-la (conseqüência da nossa imperfeição, que não nos permite a onisciência, ou seja, não nascemos sabendo, vamos criando conceitos aos poucos), como enxertá-la na cabeça de outra pessoa como sendo algo verdadeiro? Entendendo verdadeiro, aqui, como aquilo que é imutável e que sempre existiu, logo, que existe antes da própria pessoa.
O que é verdade para aquele rapaz de 20 anos pode não ser para aquele mesmo rapaz agora mais velho, de 40 anos, que viveu experiências que não imaginava, que forjou conceitos que não sonhava aos 20 anos. Equivocar-se é um direito. Mas não se trata de um equívoco, pois ao rapaz de 20 anos condiziam suas idéias, a diferença é se ele aceita que podem mudar, o que é deveria ser no fundo, natural, pois coisas acontecem o tempo todo sob nosso controle ou não, e dessas constantes novas experiências nascem novos conceitos.

É óbvio, mas não tão óbvio assim.

O “será-que-não-me-entende?” é bastante comum e proporciona um mal-estar tremendo, quando se insiste em “dar murro em ponta de faca”, quando convencer já não é uma estratégia, mas uma atividade frustrante. Alguns acham que mudar de idéia é algo repreensível ou mesmo vergonhoso, mas considerando que uma das coisas que movem o mundo é a dialética – há uma tese, rebatida por uma antítese resultando em uma síntese que será novamente rebatida e assim sucessivamente – parece, no mínimo interessante, pensar que a validade de uma idéia não se encerra em si, mas nas possibilidades que ela suscita. Se não houvesse oposições e apenas concordâncias, que raios de mundo seria esse em que tudo fosse conforme? Uma idéia que pode nascer do contrário de outra talvez nunca surgisse se não fosse a negação que a gerou. Imaginem quantas idéias são abortadas, quando se diz, sem pestanejar: “amém”.

Ouvir primeiro, e depois expor suas idéias, assim, é possível rearranjá-la antes, pode-se mesmo se surpreender com os argumentos apresentados e então rever todo seu cabedal de informações, pode preferir não falar, pode apenas discordar sem saber exatamente em quais pontos.

É preciso tempo. Tempo e raciocínio. Tempo, raciocínio e disposição.

As peças são colocadas. Depois de muito exercitar isso, pode até ser que se consiga prever o movimento do outro, e aí tolhe-lo ou permiti-lo, como um jogo de xadrez.
Por essas e outras é que a verdade não existe em estado puro, isolado - quer dizer, a exceção é para os seres humanos que precisam se relacionar e acreditar que conhecem-na - ela se manifesta em vários contextos, e atende a cada um deles da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é plural, então, elas vêm e vão.
Sendo a verdade plural, pergunta-se o que é certo e o que é errado e para quem o são. Mas isso já são outros quinhentos..."

(out/10)

domingo, 24 de outubro de 2010

Nômades

E há tanto que se tem revolvido dentro de mim
Que soltas as idéias vagam pelo meu interior
Às vezes parecem sedentarizar-se nos meandros de minha mente
Noutras, afrouxam as rédeas e escapam a-rumadas

Irrupções e erupções vertem tal qual o ritmo dos dias
É sol que nasce no meu oriente
É lua que adormece no meu ocidente
O rodopio que me eleva e desconserta, o incômodo que me apraz

Há aqueles valentes e astutos que me roubam a atenção
que me fazem admirar bestificada o mundo
É possível perceber?
São pensamentos fortes e indomáveis - ariscos
que querem fugir, correr, enfrentar o mundo

Estouros epifânicos, miúdos intempestivos
de descoberta do mundo
Trago tragando para dentro o que contemplo e experimento
Digeri-los apenas não posso... são tão autônomos - diabretes

Mesmo os mansos e conhecidos, velhos amigos,
me surpeeendem - gostam mesmo é de me escapulir e conhecer os novos inquilinos
É possível perceber?
Quando se chocam, se assustam e despertam uma sonolenta e furiosa emoção

- Em tempos de êxodo e migração como estes
ando meio manco e comovido
Meu desarranjo vai se abrandar mas,
acho mesmo que agora é este o meu novo jeito de caminhar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De um pelo outro

"Não me lembro o dia em que foi, uma terça ou quarta-feira, quando ela chegou em casa à noitinha com um breve sorriso que trazia em si uma curva de preocupação. A semana estava se passando morosa e pesada como um rolo-compressor por cima dela: os dias estavam sendo difíceis.

Assim que cruzou a soleira da porta e a trancou, despejou a bolsa no sofá enquanto enroscava um pé no outro para tirar os sapatos e então começar a relaxar. Quando os pés, quentes, tocaram o assoalho frio, subiu-lhe instantaneamente um torpor leve, era como se nada mais aconchegante houvesse no mundo do que aquele contato macio entre a sola do pé o solo.

Entrou no banheiro, despiu-se e girou a torneira do chuveiro para a temperatura da água se estabilizar, enquanto recapitulava alguns momentos do seu dia. A água batia-lhe crocante nos ombros, lavava-se, e os pés começaram a inchar. O torpor ampliou-se e migrou para os olhos, fechando-os.

O mundo parou por alguns segundos, a única coisa que a fazia viva naquele momento era o ouvir da água se estatelando no chão, sentir o calor dela escorrendo-lhe pelo corpo, e os pés sustentando aquela cena toda.

Desligou.

Terminado o asseio foi para a cozinha providenciar algo que lhe preenchesse aquele vazio, que saciasse aquela fome aguda e subissem os níveis de serotonina em seu organismo estafado. Foi o que fez. Sentou-se para ler e exercitar o punho, enquanto recobrava o universo que deixara suspenso por alguns minutos.

Não muito tempo depois de ter começado a estudar, seu telefone móvel tocou, ela atendeu e era a voz dele que trafegava em ondas pelos fios transmissores, do outro lado da linha, do outro lado do país, do outro lado da mente dela. O início da conversa foi o de praxe: saudações carinhosas, perguntas corriqueiras e sistematizadas seguidas de respostas não inesperadas. Até que a voz dela se alterou, enchendo o quarto e escapando pelo vão da porta, pela fechadura, pela fresta da janela: queria justificar-se. E para defender sua posição, diante da intransigente cobrança vinda de lá, ela falou-lhe cerca de sete vezes porquê não ligara.

A discussão mergulhou na noite, e ambos pareciam presos, imantados pelos ouvidos aos comunicadores já melados de suor das mãos que os seguravam, denunciando o estado exaltado em que se encontravam os interlocutores.

Sem prévio aviso, não fosse aquela longa pausa silenciosa e repentina - a voz dela saiu da garganta, mas agora estava fraca e embargada, talvez o esforço de persuasão tivesse passado então para os olhos (mas ele não a via), seu corpo se concentrava em uma só coisa: fazê-la chorar.

A voz masculina a convencera de que ela era culpada, que o lapso de memória que a acometera naquele dia não importava, que sua mente agitada e ocupada não era suficiente para que ela esquecesse. Ele chegou a dizer-lhe que sua "falha" era indigna, concluiu que ela não o amava simplesmente.

Ela, mesmo dolorida de tantas lágrimas, argumentava que pensava nele sim, que não o esquecera, que o amava. Mas desses três verbos, o primeiro era esporádico, o segundo verdadeiro - ela confessou o crime - o terceiro, ininterrupto.

Dando-se por satisfeito, ele a perdoou, depois, falaram despedidas e trocaram palavras carinhosas, como para remediar o turbilhão que se passara ou para cumprir as vias justas de um diálogo ou ainda, para certificarem-se do que eles não queriam nem podiam esquecer."
(set/10)

domingo, 20 de junho de 2010

Eu sou todos, todos não são eu

"A minha lucidez mais uma vez me aventou idéias rotas, é que não sei que coragem é essa, que ímpeto é esse para o que antes era frio, distante e prosaico, sei que fiz. Fiz beijar e abraçar, rir e sussurrar. Fiz o que fazem os seres de minha espécie, não pude evitar. Fiz gosto. (Dizem mesmo que o deus Eros está difuso na alma dos hedonistas, e assim, desmembrado em seres humanos, ele está manco em si). Houve então uma súbita pausa no setor calculista e desconfiado que me governa; eu me encontrava envolto em pessoas - eram do mesmo tempo cronológico que eu - em sons, e só um instante foi o que bastou, e minha lucidez comigo, todo o tempo. Há quem diga que não há nada mais natural (para mim, poucas coisas o são de fato) que o encontro entre dois. Que eu me renderia um dia, mas não evito as ardentes e pululantes questões em minha mente: que busca insana é essa pelo carinho, pelo afeto (?), pelo corpo alheio? Que insatisfação é essa que pulsa nas mãos, no peito, na boca, na cabeça, que clama por se tornar satisfeita? Mas é apenas um sentir... material. É pouco. A sensação física está aquém do sentimento, o problema está na ordem de chegada, na prioridade atribuída. Enquanto eu viver no mundo das significações, dos porquês, das causas e conseqüências, vou conhecer, desprezar o vazio. E foi o vazio."
(jun/10)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eu era um lobisomem juvenil - Legião Urbana

"Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou
Não falo como você fala
Mas vejo bem
O que você me diz...

Se o mundo é mesmo
Parecido com o que vejo
Prefiro acreditar
No mundo do meu jeito
E você estava
Esperando voar
Mas como chegar
Até as nuvens
Com os pés no chão...

O que sinto muitas vezes
Faz sentido e outras vezes
Não descubro um motivo
Que me explique porque é
Que não consigo ver sentido
No que sinto, que procuro
O que desejo e o que faz parte
Do meu mundo...

O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora, volta
Todos têm, todos têm
Suas próprias razões...

Qual foi a semente
Que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante...

Se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não se esquecer
Eu estarei aqui...

Não digo nada
Espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei
O que você me falou
Me fez rir e pensar
Porque estou tão preocupado
Por estar
Tão preocupado assim...

Mesmo se eu cantasse
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato...

Mas se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não se esquecer
Eu estarei aqui...

Ou então não terás jamais
A chave do meu coração..."