segunda-feira, 18 de junho de 2012

Do paradoxo do apego


Sei de um lugar afastado em uma cidade do interior paulista no qual comem e dormem cerca de trinta pessoas “acima de sessenta anos”. Quando vão se recolher, elas se dividem em duas alas: a masculina e a feminina, sendo que durante o dia compartilham o pátio, a cozinha e a sala de TV da antiga casa. Mas mais do que comer e dormir – e é isso que seus familiares e parentes querem acreditar que eles fazem – sua razão de viver é esperar. Vivem clamando por atenção, saibam eles disso ou não. Há muitos que não veem pessoas com genes semelhantes há anos, não vêm filhos, não vêm irmãos, não vêm primos. Outros nem tiveram tempo de deixar uma prole solta no mundo antes de serem deixados aos cuidados de um casal munido de boa vontade e caridade para que cozinhem para eles, troquem suas roupas, lavem seus objetos pessoais, entretenham suas mentes. Afinal, é por causa delas, das mentes irregulares, que eles foram parar ali.

Há cerca de quatro meses, uma mulher soube de suas existências. Não pensou duas vezes e se propôs a arrecadar, comprar e levar mantimentos àquelas pessoas além-pós-extra-marginalizadas. Não bastasse ausência de infra-estrutura, ausência de políticas públicas, ausência de comida, há a mais dolorosa e habitual ausência de afeto. Certamente criaram-se vínculos entre aqueles que vivem sob aquele mesmo teto, mas jamais saberemos quão sólidos podem ser, mas sabemos que podem ser. Uma vez que não mais cumprem um modelo ideal de “felicidade no seio familiar”, isso não descarta a possibilidade de haver trocas e estabelecimento de amizades. Não é porque não seguem o padrão imaginado, que são menos legítimos.

Amigos podem ser qualquer pessoa. Só precisam ter a chance de sê-lo.

A mulher parece que virou amiga de alguns deles. E isso se deu de forma curiosa e não sem surpresas. Vamos a um exercício de lógica: Ela contribui com seu sustento material. Eles recebem e agradecem. Ela vai hoje, semana que vem, na outra e assim por diante. Eles a recebem, agradecem e a esperam.Ela vai e começa a ouvir as suas histórias. Eles a recebem, agradecem, a afagam e a esperam. Ela vai e tira fotos. Eles a recebem, agradecem, a afagam, a esperam e a consideram. Ela agora é sinônimo de mantimentos, atenção e carinho. Eles se apegam.

Uma dessas pessoas pediu-lhe que a levasse para morar consigo. Ela disse que não poderia, pois sua casa era pequena e tinha criança pequena. Outra guardou sua foto na gaveta porque pensou que ela não voltaria mais para visitá-los, como todos os outros fizeram.

Desse desfecho sem ponto final nos deparamos com uma controversa questão: será que apenas as relações materiais salvaguardam as pessoas de se envolverem demais umas com as outras? Se não fosse o (mínimo) convívio, o afeto não se desenvolveria, expectativas não seriam criadas, frustrações seriam impedidas, mal-estares seriam evitados, lágrimas seriam guardadas.

Não deveria haver mal em se envolver demais, faz bem, é saudável, aquece os corações. Não deveria haver mal no afeto.

Ela poderia começar a levar os mantimentos, deixá-los na porta e ir embora silenciosamente.

Mas, não. Não pode ser isso. É contraproducente.

Limitar o contato humano às necessidades materiais é como anular suas capacidades mais sublimes, tudo seria facilmente mecanizado, aboliríamos os sentimentos!

Talvez a forma como o afeto era correspondido extrapolasse os anseios de quem o desejava e de quem o fornecia, gerando uma profunda tristeza, que, por sua vez, é insolúvel através de palavras, presentes, quiçá de qualquer forma de afeto conhecida pelos seres humanos.

sábado, 26 de novembro de 2011

De andanças (parte I)




Quando vi essa cena, achei que valia a pena registrá-la: "I did not notice the passers-by, and they did not notice me" [Moment of surrender - U2]

terça-feira, 10 de maio de 2011

De baratas e mini-saias

"Havia barulho, bastante. Ronco de engrenagens, ranger de dentes e línguas, uma sinfonia urbana sem harmonia musical e em plena harmonia ocasional.
Eu já estava torpe, depois de trinta minutos sentado no mesmo assento, sacolejando para todos os ângulos possíveis que meu corpo até desconhecia. Dessa vez, eu não estava do lado da janela e sim do corredor, por isso, minha atenção que seria exclusiva da janela para fora, agora era forçosamente tragada para o interior do veículo e para as inúmeras micro-ocorrências que se davam entre aqueles bancos e naquela estreita passarela emborrachada e suja sob pares ímpares de pés.

Uma vez que eu estava do lado oposto ao da janela, uma boa razão me impedia de contemplar os prédios, as pessoas, as árvores, os carros, as pessoas, o asfalto, as lojas, o céu, as nuvens, as pessoas através da turva mancha de sebo e suor de cabeças invisíveis que outrora repousaram no vidro: um senhorzinho estava ali depositado.

Vestido de modo simples, do mesmo modo que já foram vistos dezenas iguais a ele somente naquele dia, com uma camisa bege, uma calça cinza com as barras enegrecidas pelo constante roçar do chão e de seus pés, uma sacola que aniversariara mais de 10 anos descansava sobre seu colo. Parecia cansado, retornando de uma jornada estafante de trabalho, parecia mesmo que ele nem estava ali.

Enquanto eu, mergulhado em meus pensamentos, apenas via as coisas e seus movimentos, não as enxergava, nada atinha minha atenção. Mas, quem diria! Foi o senhorzinho que se mostrou vivo e operante quando virou ligeiramente a cabeça em minha direção – mas não diretamente para mim – e então comecei a enxergar o que se passava: se ele olhou, deveria ser algo interessante, algo que destoasse do cenário fosco de até então, deveria ser algo que se destacasse tanto a ponto de retirar todos de seu náufrago reflexivo e os levar à deriva.

Eram as pernas de uma mulher. Mas não só, eram as pernas de uma mulata alta, magra, mas não só, eram pernas compridas e bem delineadas que desciam de uma minissaia, mas não só, eram pernas que queriam ficar de pé, brilhando, no glamoroso tapete negro de borracha, no centro do ônibus, atraindo a atenção de todos.

As pernas levavam fatalmente os que a fitavam a olhar para cima, e ir subindo até seu rosto, quando então, poderiam avaliar a dona daquele descalabro. No fundo, pouco importavam seus traços, sua ascendência, sua profissão, seus medos, seus desejos, seu nome – aquela mulher eram aquelas pernas e aquelas pernas eram dos olhos de quem as vissem.

Eu vi – obviamente - mas não me demorei nelas por muito tempo, voltei a contemplar o assoalho burlesco.

É engraçado como a atenção pode ser desviada, mas não abolida e, por vezes ela nos toma por completo e se volta inteiramente para outra coisa. Foi o que me ocorreu quando, instantes depois de já ter desprendido minha atenção da nova passageira, eu vi uma barata no tapete. No mesmo tapete em que pisavam pernas comuns, pernas atraentes, e pernas peludas de baratas. Fui tomado por um asco apreensivo: a barata poderia, sorrateiramente correr até meu tênis e eu, que não a sentiria, seria invadido pela sua astúcia, feiúra e contaminação, caso ela resolvesse escalar as minhas pernas!

Nada mais havia naqueles minutos subseqüentes além da barata. Eu só podia segui-la com meus olhos temerosos, ela estava ali afinal, tão veloz, tão viva, tão chamativa. Não era possível que ninguém mais a tivesse notado. Nem mesmo o senhorzinho ao meu lado, que tinha, de certa forma o mesmo campo de visão que eu, parecia se incomodar com aquela barata desfilando no meio do ônibus.

Não demorou muito para que chegasse meu ponto de descida: não vi mais nada, levantei, apertei o botão que pede por mim, gentilmente ao motorista, para poder sair dali. Virei-me para o fundo do ônibus, onde havia outra porta e, sem olhar para trás, por ali escapei."

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Do (des)propósito do novo título

Quando, há tempos, eu comecei este blog, o projeto-piloto previa que fosse sobre vários assuntos do mundo, alguns poemas, outras reflexões engajadas, outros textos críticos. Admiro, de verdade, pessoas que têm sempre o que escrever, e discutem, e expressam opiniões, e se tornam especialistas nos mais diversos assuntos importantes deste mundo. Eu queria ser assim. Mas não sei falar das idéias dos outros, só das minhas – e olhe lá.

Quando estou “por aí”, pelo mundo, eu vejo, penso, zil coisas, e por vezes não tenho tempo, paciência, ou mesmo caneta e papel pra escrever (problema que resolvi colocando uma caneta e um tantinho de papel em cada bolsa minha). Às vezes são idéias geniais, outras vezes são abjetas. Mas são idéias!
[Nunca jogue fora uma idéia, alguém pode nunca ter pensado nela, ou ninguém pode ter pensado nela – alguém e ninguém são entes perigosos, e insistem em ficar por perto: cuidado com eles.] Bem, chega de bancar a bula de idéias.

Então, as minhas, ora soam como grandes revelações, ora como pequenos rompantes supostamente descartáveis, vulgo: idiotices. Eu venho aqui por diversas razões, para (tentar) compartilhar meus pensamentos, minhas insanidades, não para auto-promoção – mesmo porque: o que está no contrato mesmo, senhor diretor? Ah, sim! Nada de mercadológico.

Ok.

Só idéias que me parecem merecedoras de serem escritas, que eu necessito escrever.. não adianta só pensar, só falar, só fingir que não existem, eu tenho a aguda ânsia de escrever, é quase uma sanha que não cessa. Desde há alguns poucos anos. Não quero que parem nunca. É um jeito de eu me lembrar de mim, de me preservar hoje (e hoje não é sempre hoje! Vejam só que perigo se o perdermos!!!), de olhar para a minha e só minha história e saber que caminho trilhei, que vias deixei de pegar, a quais atalhos renunciei.

Eu não sei escrever bonito também. Não sei rimar, nem fazer soneto ou colocar métrica nas minhas palavras (é... depois de um tempo você as usa tanto que as toma para si), nem fazer comparações mirabolantes. Não é preciso que alguém leia isto, julgue, aprove ou mesmo goste (!), eu finjo que alguém lê porque assim exercito minhas capacidades cognitivas, organizo minhas idéias, crio relações entre elas. Tento deixar claro e límpido o que em mim está tão obscuro e emaranhado, só isso.

Eu só quero desafogar eu mesma, e não acho que isso seja diagnosticável como solidão- depressão-misantropia, “coisa de quem não tem amigos” – pode até ser isso também, mas o propósito é apenas ver minha criação em outro lugar que não em mim, um diálogo mudo, eu falo, meu interlocutor é o papel escrito por mim, e isso é o bastante. Me alivia, me torna mais leve, me liberta.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Verdade é que não existe uma única verdade

"Analisar o novo a partir do que já é conhecido pode resultar em uma indigestão, uma insatisfação. Isso é típico de seres humanos, coisa difícil mesmo de mudar. Mas, uma vez aberto às novas idéias, fica mais fácil assimilar e aceitar, mesmo porque, no mínimo, agregará conhecimento, e daqui um tempo, uma vez adquiridas outras idéias, pode voltar a analisar aquela primeira e então (mais uma vez) avaliá-la a partir daquilo que é conhecido, mas que antes não era: tornou-se. Pois certamente novas questões sempre irão surgir, e como lidamos com elas é que são elas.

Pura burrice humana: querer convencer os outros de que as nossas idéias são a verdade, que são irrefutáveis. Se nem nós sabíamos da nossa idéia antes de formulá-la (conseqüência da nossa imperfeição, que não nos permite a onisciência, ou seja, não nascemos sabendo, vamos criando conceitos aos poucos), como enxertá-la na cabeça de outra pessoa como sendo algo verdadeiro? Entendendo verdadeiro, aqui, como aquilo que é imutável e que sempre existiu, logo, que existe antes da própria pessoa.
O que é verdade para aquele rapaz de 20 anos pode não ser para aquele mesmo rapaz agora mais velho, de 40 anos, que viveu experiências que não imaginava, que forjou conceitos que não sonhava aos 20 anos. Equivocar-se é um direito. Mas não se trata de um equívoco, pois ao rapaz de 20 anos condiziam suas idéias, a diferença é se ele aceita que podem mudar, o que é deveria ser no fundo, natural, pois coisas acontecem o tempo todo sob nosso controle ou não, e dessas constantes novas experiências nascem novos conceitos.

É óbvio, mas não tão óbvio assim.

O “será-que-não-me-entende?” é bastante comum e proporciona um mal-estar tremendo, quando se insiste em “dar murro em ponta de faca”, quando convencer já não é uma estratégia, mas uma atividade frustrante. Alguns acham que mudar de idéia é algo repreensível ou mesmo vergonhoso, mas considerando que uma das coisas que movem o mundo é a dialética – há uma tese, rebatida por uma antítese resultando em uma síntese que será novamente rebatida e assim sucessivamente – parece, no mínimo interessante, pensar que a validade de uma idéia não se encerra em si, mas nas possibilidades que ela suscita. Se não houvesse oposições e apenas concordâncias, que raios de mundo seria esse em que tudo fosse conforme? Uma idéia que pode nascer do contrário de outra talvez nunca surgisse se não fosse a negação que a gerou. Imaginem quantas idéias são abortadas, quando se diz, sem pestanejar: “amém”.

Ouvir primeiro, e depois expor suas idéias, assim, é possível rearranjá-la antes, pode-se mesmo se surpreender com os argumentos apresentados e então rever todo seu cabedal de informações, pode preferir não falar, pode apenas discordar sem saber exatamente em quais pontos.

É preciso tempo. Tempo e raciocínio. Tempo, raciocínio e disposição.

As peças são colocadas. Depois de muito exercitar isso, pode até ser que se consiga prever o movimento do outro, e aí tolhe-lo ou permiti-lo, como um jogo de xadrez.
Por essas e outras é que a verdade não existe em estado puro, isolado - quer dizer, a exceção é para os seres humanos que precisam se relacionar e acreditar que conhecem-na - ela se manifesta em vários contextos, e atende a cada um deles da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é plural, então, elas vêm e vão.
Sendo a verdade plural, pergunta-se o que é certo e o que é errado e para quem o são. Mas isso já são outros quinhentos..."

(out/10)

domingo, 24 de outubro de 2010

Nômades

E há tanto que se tem revolvido dentro de mim
Que soltas as idéias vagam pelo meu interior
Às vezes parecem sedentarizar-se nos meandros de minha mente
Noutras, afrouxam as rédeas e escapam a-rumadas

Irrupções e erupções vertem tal qual o ritmo dos dias
É sol que nasce no meu oriente
É lua que adormece no meu ocidente
O rodopio que me eleva e desconserta, o incômodo que me apraz

Há aqueles valentes e astutos que me roubam a atenção
que me fazem admirar bestificada o mundo
É possível perceber?
São pensamentos fortes e indomáveis - ariscos
que querem fugir, correr, enfrentar o mundo

Estouros epifânicos, miúdos intempestivos
de descoberta do mundo
Trago tragando para dentro o que contemplo e experimento
Digeri-los apenas não posso... são tão autônomos - diabretes

Mesmo os mansos e conhecidos, velhos amigos,
me surpeeendem - gostam mesmo é de me escapulir e conhecer os novos inquilinos
É possível perceber?
Quando se chocam, se assustam e despertam uma sonolenta e furiosa emoção

- Em tempos de êxodo e migração como estes
ando meio manco e comovido
Meu desarranjo vai se abrandar mas,
acho mesmo que agora é este o meu novo jeito de caminhar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De um pelo outro

"Não me lembro o dia em que foi, uma terça ou quarta-feira, quando ela chegou em casa à noitinha com um breve sorriso que trazia em si uma curva de preocupação. A semana estava se passando morosa e pesada como um rolo-compressor por cima dela: os dias estavam sendo difíceis.

Assim que cruzou a soleira da porta e a trancou, despejou a bolsa no sofá enquanto enroscava um pé no outro para tirar os sapatos e então começar a relaxar. Quando os pés, quentes, tocaram o assoalho frio, subiu-lhe instantaneamente um torpor leve, era como se nada mais aconchegante houvesse no mundo do que aquele contato macio entre a sola do pé o solo.

Entrou no banheiro, despiu-se e girou a torneira do chuveiro para a temperatura da água se estabilizar, enquanto recapitulava alguns momentos do seu dia. A água batia-lhe crocante nos ombros, lavava-se, e os pés começaram a inchar. O torpor ampliou-se e migrou para os olhos, fechando-os.

O mundo parou por alguns segundos, a única coisa que a fazia viva naquele momento era o ouvir da água se estatelando no chão, sentir o calor dela escorrendo-lhe pelo corpo, e os pés sustentando aquela cena toda.

Desligou.

Terminado o asseio foi para a cozinha providenciar algo que lhe preenchesse aquele vazio, que saciasse aquela fome aguda e subissem os níveis de serotonina em seu organismo estafado. Foi o que fez. Sentou-se para ler e exercitar o punho, enquanto recobrava o universo que deixara suspenso por alguns minutos.

Não muito tempo depois de ter começado a estudar, seu telefone móvel tocou, ela atendeu e era a voz dele que trafegava em ondas pelos fios transmissores, do outro lado da linha, do outro lado do país, do outro lado da mente dela. O início da conversa foi o de praxe: saudações carinhosas, perguntas corriqueiras e sistematizadas seguidas de respostas não inesperadas. Até que a voz dela se alterou, enchendo o quarto e escapando pelo vão da porta, pela fechadura, pela fresta da janela: queria justificar-se. E para defender sua posição, diante da intransigente cobrança vinda de lá, ela falou-lhe cerca de sete vezes porquê não ligara.

A discussão mergulhou na noite, e ambos pareciam presos, imantados pelos ouvidos aos comunicadores já melados de suor das mãos que os seguravam, denunciando o estado exaltado em que se encontravam os interlocutores.

Sem prévio aviso, não fosse aquela longa pausa silenciosa e repentina - a voz dela saiu da garganta, mas agora estava fraca e embargada, talvez o esforço de persuasão tivesse passado então para os olhos (mas ele não a via), seu corpo se concentrava em uma só coisa: fazê-la chorar.

A voz masculina a convencera de que ela era culpada, que o lapso de memória que a acometera naquele dia não importava, que sua mente agitada e ocupada não era suficiente para que ela esquecesse. Ele chegou a dizer-lhe que sua "falha" era indigna, concluiu que ela não o amava simplesmente.

Ela, mesmo dolorida de tantas lágrimas, argumentava que pensava nele sim, que não o esquecera, que o amava. Mas desses três verbos, o primeiro era esporádico, o segundo verdadeiro - ela confessou o crime - o terceiro, ininterrupto.

Dando-se por satisfeito, ele a perdoou, depois, falaram despedidas e trocaram palavras carinhosas, como para remediar o turbilhão que se passara ou para cumprir as vias justas de um diálogo ou ainda, para certificarem-se do que eles não queriam nem podiam esquecer."
(set/10)

domingo, 20 de junho de 2010

Eu sou todos, todos não são eu

"A minha lucidez mais uma vez me aventou idéias rotas, é que não sei que coragem é essa, que ímpeto é esse para o que antes era frio, distante e prosaico, sei que fiz. Fiz beijar e abraçar, rir e sussurrar. Fiz o que fazem os seres de minha espécie, não pude evitar. Fiz gosto. (Dizem mesmo que o deus Eros está difuso na alma dos hedonistas, e assim, desmembrado em seres humanos, ele está manco em si). Houve então uma súbita pausa no setor calculista e desconfiado que me governa; eu me encontrava envolto em pessoas - eram do mesmo tempo cronológico que eu - em sons, e só um instante foi o que bastou, e minha lucidez comigo, todo o tempo. Há quem diga que não há nada mais natural (para mim, poucas coisas o são de fato) que o encontro entre dois. Que eu me renderia um dia, mas não evito as ardentes e pululantes questões em minha mente: que busca insana é essa pelo carinho, pelo afeto (?), pelo corpo alheio? Que insatisfação é essa que pulsa nas mãos, no peito, na boca, na cabeça, que clama por se tornar satisfeita? Mas é apenas um sentir... material. É pouco. A sensação física está aquém do sentimento, o problema está na ordem de chegada, na prioridade atribuída. Enquanto eu viver no mundo das significações, dos porquês, das causas e conseqüências, vou conhecer, desprezar o vazio. E foi o vazio."
(jun/10)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eu era um lobisomem juvenil - Legião Urbana

"Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou
Não falo como você fala
Mas vejo bem
O que você me diz...

Se o mundo é mesmo
Parecido com o que vejo
Prefiro acreditar
No mundo do meu jeito
E você estava
Esperando voar
Mas como chegar
Até as nuvens
Com os pés no chão...

O que sinto muitas vezes
Faz sentido e outras vezes
Não descubro um motivo
Que me explique porque é
Que não consigo ver sentido
No que sinto, que procuro
O que desejo e o que faz parte
Do meu mundo...

O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora, volta
Todos têm, todos têm
Suas próprias razões...

Qual foi a semente
Que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante...

Se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não se esquecer
Eu estarei aqui...

Não digo nada
Espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei
O que você me falou
Me fez rir e pensar
Porque estou tão preocupado
Por estar
Tão preocupado assim...

Mesmo se eu cantasse
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato...

Mas se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não se esquecer
Eu estarei aqui...

Ou então não terás jamais
A chave do meu coração..."

domingo, 30 de maio de 2010

"Acalanto do seringueiro" - Mário de Andrade

"Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
"Sagrados" como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme ...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme..."

domingo, 23 de maio de 2010

Livre-associação

O que você quer?
Insuportável escárnio oculto,
Voluptuoso amadorismo velado,
Insensato consciente vivaz,
Pungente estupidez desejada,
Deleitosa rapidez encontrada,
Forte impulso ensandecido,
Falsa censura perturbada,
Fugaz empreendimento açoitado,
Ansiosa aventura rasgada,
Inventiva visão deturpada,
Inóspito terreno habitado,
Vago raciocínio lamentado,
Odioso querer negado,
Possível levante amaciado,
Incômodo permanente recente,
Horizonte de contradições, mar de sabedoria, poço de envenenamento, rio de barqueiros,
O que você quer?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Conto confesso

Na época dos meus dezoito anos, já morava longe dos meus pais havia um ano, me estabeleci numa cidade grande a que chamam São Paulo. Me virava muito bem, obrigado. Honestamente, diferente dos meus amigos, eu não sentia a distância de uma meia via estadual a que eu me encontrava da minha família. É claro que sentia saudades, gostava dos finais de semana em que ia visitá-los, o difícil não era ir, era voltar: é que me dava uma preguiça de retornar à rotina, ao corre-corre frenético da cidade, à vigilância do meu próprio corpo, à medonha e fria vulnerabilidade, às discussões infindáveis que eu tinha que ouvir nas aulas, às conversas insossas e pseudo-profundas, à saudade que eu sentiria do aconchego. Eu nunca tive problemas familiares de teor alcoólico ou de violência, talvez de intransigência. Vim pra cá pensando em ser bacana com as pessoas, mas sei que carregava semblante austero e levemente hostil. Ora, hostil por hostil, as pessoas são quando têm medo, elas estão sempre se defendendo, acham que tudo e todos podem e querem invadir seu império que é nada menos que elas mesmas.

O que me motivava a voltar era o gostinho da liberdade, do “eu faço, eu resolvo”. Eram os amigos com os quais eu ria, chorava, compartilhava idéias e sentimentos, gostava de sentir que estava investindo em mim, que agora era a hora de eu me colocar no mundo, de me posicionar e dizer: “Oi, eu existo, o que posso fazer partindo desse pressuposto?”. Sei que tinha as mais belas intenções, estava fruta recém-colhida do pé.

Eu nunca quis admitir, mas... sabe, eu tinha a nítida esperança de que encontraria alguém que me compreendesse neste mundo, me aceitasse e gostasse de mim do jeito que eu era. Mês sim, mês não, trimestre sim, trimestre não, eu me apaixonava. Tudo bem, pode parecer paradoxal e desconexo (como este conto) e talvez seja mesmo, mas era assim que eu me sentia.

Fosse quem fosse, eu sempre esperava encontrá-lo, numa rua, numa escada, numa lanchonete, numa avenida movimentada, eu sei que ele estaria lá, só precisava trombar com ele. Falar, ora, eu falava quando mas não o quanto era possível, depois de vê-lo sempre achava que algo ficara faltando, de alguma maneira meu cérebro guardava todos os detalhes, tudo era muito calculado, todos os gestos e as palavras, mas era sempre tão rápido que eu achava que havia espontaneidade e sinceridade.
Teve um dia que fui entregar não lembro o quê nas mãos de um deles, e as minhas além de suarem frio, ainda me denunciavam (pelo menos eu assim pensava) tremendo. Veja só que infame: tremendo. De frio? De medo? De amor? (eu ria quando pensava nisso, e depois, chorava, metaforicamente, é claro. Eu nunca chorei por eles. Mentira. Uma vez chorei, não precisava muito eu já me condenava à angústia. Culpava os hormônios, ou minha santa e demoníaca incapacidade de conquista, na pior das hipóteses eu odiava minha falta de criatividade. Eu não chorava por ninguém, chorava de raiva de mim).

Algumas coisas na vida, a gente aprende a abominar, mas isso não significa que eu não passasse ou convivesse com elas: eu detestava passar vontade, quer dizer, me isentar de algo que na realidade eu bem queria fazer. Por conta disso, uma vez, de repente, encontrei um deles num corredor, de longe não o reconhecera, à meia-distância eu o vira, mas fingira não ver, e nos encontramos, um beijo rápido em um lado da face de cada um, um breve toque no ombro mais próximo, um singelo: “Oi, tudo bem?” e engatava um papo-furado qualquer que não era nada mais que palavras boiando no ar. Eu me concentrava no seu rosto, queria olhar tanto para memorizá-lo com o máximo de detalhes, mas sempre compondo um todo coerente, aquele todo que uma vez me agradara e me levara a imiscuir-me nessa prosa e nessa busca não sei bem do quê. Eu ficara mesmo cego para os lados, ficara com o cérebro cego, só conseguia tatear com os olhos aquela figura que tinha os seus no mesmo horizonte dos meus. Lembro-me bem que mergulhei naquele castanho, não havia nada que me pudesse tirar de lá, eu só queria ficar lá, sem planejar para onde iria depois. Até que ele me expulsou, quando disse algo que socialmente eu deveria interpretar como um fim de conversa, um adeus barato e doloroso foi o que o ouvi dizer.
Não acho possível que ele não tenha percebido esse passeio todo que fiz nele, não tenha sentido nos meus olhos, tudo o que passava na minha cabeça, que tudo o que eu queria mesmo, era ele. Só ele. Minha mente estava tão focada que não pude prosseguir, havia um obstáculo, alguma noite antes de dormir eu consertaria aquele episódio.

Para mim era límpido e notório o interesse, mas até hoje não sei se era de verdade, chego a pensar que foi só um rompante interno, não pude externá-lo. Por quê? Ah, eu me pergunto: por quê? Consegui manter a conversa superficial, mas de bom entendimento, só não falei o que eu realmente queria falar. Por quê?

Sei bem que escrevendo isso, não está consumada minha veleidade juvenil. O dia que encontrei um alguém e não apenas encontrei por encontrar, como se encontra uma parede ou uma porção de folhas secas na rua foi... muito curioso. Mas este caso eu conto em uma outra vez.

domingo, 21 de março de 2010

Fenômeno meteoro(i)lógico

"Era branco, naquela vasta alvura
eu poderia adentrar lançado
Eu poderia ficar ali todo o tempo que passou
e ainda vai passar por este mundo
Seria capaz de nunca mais fechar os olhos
só para poder contemplar
sem perder um momento sequer
aquela opaca, densa brancura
Foi sem querer.
eu apenas ouvi o barulhinho afável,
virei-me para a janela e vi aquela senhora turva
espessa e fluida
enternecida numa claridade desconcertante
***
Na janela havia dedos do sol, foi arrebatador:
eu estive na Terra, naquela cidade, naquela tarde, naquele instante e pude ver
eu vi
não sei se verei novamente, mas não é preciso,
hoje estou com sorte.
Foi de repente que um vento soprou gargalhando e levou-a embora,
desfê-la diante dos meus olhos
dissipou-a.
O burburinho calou e agora ouço uma risada sádica,
o vento tomou seu lugar,
as cores voltaram.
Mas o sol, impassível no seu distante trono, continua a adentrar minha janela."
(mar/10)

quarta-feira, 17 de março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sem título VI

"Passou um guarda que me julgou suspeito
só passou, passou e olhou.
Mais à frente um casal aos beijos
O guarda passou e não os olhou.
Algumas pernas vêm e vão,
nenhuma dela fica.
Às minhas costas os carros rodam,
à minha frente uma sombra fina,
Eu não sei mais se estou aqui."

sábado, 30 de janeiro de 2010

Crônica de festa de escolinha

Na escolinha, noite de apresentação. Os portões só abririam às 19:30, 19:00 é hora de os desavisados chegarem e o porteiro dizer-lhes que só abrirá dali a meia hora. Ficam sentados nos banquinhos esperando, observando tricotando.

Homens e mulheres chegando, mais e mais crianças, um ou outro adolescente - desprovidos da mágica máscara da paciência ou da anuência, uns entediados, outros observando e comentando, sob risos - tios, avós, parentes das crianças-show.
Um casal distinto, bem vestido, pára e olha de modo perpendicular (de cima para baixo) as pessoas à sua volta afinal, eles vieram numa carruagem de abóbora cheia de “glitter”, por isso aquele olhar desdenhoso e típico dos que têm sangue azul e sobrenome conhecido na pequena cidade.

Outro casal passa com os filhos, e repete o gesto.
Mais outro, e outro, e assim sucessivamente.
Talvez 1% de quem estivesse ali na calçada não se encaixasse no padrão exigido, não seguisse o ISO da sociedade, ou não tivesse sobrenome conhecido. Adivinha para onde convergiam os olhares “elitóides”? Exato. Para o 1%. Mas não porque estivessem chamativos, é que estavam pisando em território nobre, ainda mais com roupas simples, inadequadas para aquele contexto. Já falei, é que não tinham sobrenome adequado.

Muitos deles se conheciam, estalos de beijo pra cá, apertos de mão pra lá, sorrisos duros pra todos os lados. E a conversa rolava:
- Que carro!
- Que bolsa! Quanto pagou?
- Que cabelo! Onde arranjou?
- Que pele! Em que viagem?
- Que marido! – ops, isso foi um pensamento ; sabe como é né, uns conhecem mais e melhor os maridos e esposas do que os próprios maridos e esposas.
- Que gentalha por aqui hoje, hein! – outro pensamento, esse, geral.

Bateu 19:30.

A nata, como sempre, ansiosa para sobressair do bule começou a se agitar para entrar na escolinha.
Suas abóboras fecharam a rua, dali a ralé não passaria. Tudo bem, estavam seguros.
Sem perder a pose, ou o salto alto ou o “Rolex”, o gado transpassou a porteira. Hora de se acomodar nos bancos para assistir à apresentação.
Burburinhos, risadas, mais cumprimentos , mais hipocrisia, mais alegria! E passos, e “toc-tocs”, rumo aos assentos.
A diretora pegou o microfone e pediu-lhes que, educadamente, se apertassem um pouco mais para que outras pessoas (retardatários) se fixassem em seus lugares.
Dez minutos depois, todas as “Colcci”, “Dolce & Gabana”,” Diesel”, ”Lacoste”, “Victor Hugo”, “Louis Vouilton”, “Opera Rock” estavam cobrindo corpos iguais bem sentados.

E mais burburinho.

Mais cinco minutos até começar o silêncio, este é claro pedido educadamente pela diretora. Afinal todos ali são bem educados, civilizados e sabem quando é hora de ficarem quietos, de pararem de empurrar, de sorrirem, de aplaudir. Saídos da mesma forma, se reconhecem, se respeitam, se amam. A etiqueta sempre falando mais alto.
Começa o espetáculo, crianças cantando, dançando, recitando textos, uma superficial profundidade colorida, válida; todas as crianças pintadas e fantasiadas para incorporar uma idéia. Uma bela mensagem, um tema rico, pouca assimilação: a elite veio bater cartão e só. Prestigiar os filhos também, é claro.
Três quartos do que as crianças disseram, virou foto, um quarto foi absorvido. A escola fez um excelente trabalho naquele ano introduziu nas crianças a “decoreba”, que maravilha!

Para finalizar, um agradecimento emocionado, sincero, a todos os presentes e uma frase para semear nas roupas ali sentadas e nas pessoas também uma consciência: o ideal primário daquela noite.
Que noite!
Que dó!
As crianças mal sabiam do que falavam ali, mal sabiam da decência e civilidade dos pais, mal sabiam que representam o futuro do país, mal sabiam que a maioria das pessoas ferve o leite, côa a nata e joga fora.
(nov\08)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O meu idioma

"Gosto como soam belas e cheias as palavras
Quando as digo, as ouço, as escrevo, as leio
Gosto da minha língua materna
Das misturas de latim, grego, tupi, português, africâner, inglês, francês
Gosto da composição: pe-de-moleque, psicologia, abóbora
Gosto das palavras
Da sonoridade de alegoria ou veraneio ou sentimento ou espelho
Gosto de entendê-las por inteiro
Ouvir o som de cada letra
Gosto da confusão boba: vislumbrar e deslumbrar
Gosto de como elas se unem, como mostram minhas origens
Como ajudam a me expressar
Como eu poderia sem elas, sentir, entender, pensar, viver?
Gosto porque não têm dono."
(nov/09)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Eu estou na varanda, e...

"...está ventando no meu rosto,
nas minhas mãos, nas minhas pernas.
Está um vento bem-vindo, está suave,
está embaraçando meus cabelos.
Gostoso.
Eu estou sentindo o mundo falando, voando e
esbarrando em mim.

...está ventando na rua,
nos prédios, nas casas, na calçada, no meio-fio.
Está ventando num homem deitado.
Está um vento frio, está embaraçando o lixo.
Inconveniente.
Vejo o homem na rua, ele está sozinho
sentindo o mundo falando, voando e
atropelando-o."
(nov/09)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vandalismo

Estava com pressa. Apertei o botão para chamar o elevador. Quando a pressa é muita, a gente tenta acelerar os acontecimentos na esperança que eles, de fato, se consumem num menor tempo. Em vista de economizar meus minutos, enfiei minha mão no bolso à procura da chave de casa. Assim que a encontrei empunhei-a deixando na posição de introdução na porta. O elevador não chegava.
Havia ao meu lado, uma parede azul que atraía loucamente minha mão para que a chave se aproximasse e a coçasse. Somado esse convite à minha impaciência, impetuosamente precipitei minha mão a centímetros da parede.
O impulso representou apenas um passatempo, a pressa quando vem à tona deixa um espaço para o desejo de não ter de fazer novamente seja lá o que for. E, intimamente, naquela situação, libertou-se o desejo escondido e ofuscado de eternizar-me. Queria, inconscientemente, de qualquer maneira, deixar fixada uma marca única, pessoal. Não cheguei a ponderar se me envaideceria ao saber que leram, viram, observaram meu feito.
Eu faria mais ou menos uma forma cheia de curvas, sem fim.
Os simbologistas, criptógrafos, jamais desvendariam o significado de tal símbolo, afinal, ele não tem nada a ser decifrado, é o simples resultado do prazer do movimento da mão sobre a parede através da chave.
Bem que eu poderia apenas assinar, com movimentos secos, rápidos, acho que ficaria mais preciso.
Não acredito que as pessoas ao subirem no elevador chegariam a ter acessos de riso, espasmos de emoção, soluços – ou ter qualquer reação – diante de qualquer figura rasgada na parede que eu produzisse. O elevador chegou.
Esqueci tudo aquilo, entrei no elevador, lembrando-me que viera. Apertei o botão do quarto andar. Mais vinte segundos até chegar na soleira da porta. Dentro do paralelepípedo oscilante, desejei ardentemente rabiscá-lo por dentro, mas concluí que ficaria esteticamente feio. Deixei de lado, saí dali e, rapidamente, destranquei a porta de casa.
(fev\09)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cru

"Sou poeta, que mais eu posso ser?
Se acredito ser somente no encontro com a liberdade
E a liberdade é criar.
É o único momento que sou para mim
E para ser, passo antes pelo aval da verdade
Como encontrar tempo para dialogar com ela?
Estou num plano – um plano que exige de mim coisas que eu não sou (ou sou, pelo menos para este plano)
Preciso parecer, preciso fingir.
Mas não me parece fingimento, pois não conheço o original;
O original é tão necessário, tão primordial, e me foi tolhido conhecê-lo.
Não é justo!
O que é justo?
Por que permitiram que eu questionasse – ou será que eu autorizei-me a tanto?
Deixar de atribuir aos outros qualquer responsabilidade parece ser o mais viável.
Eu decidi viver, eu resolvo, eu me pergunto, eu respondo.
Aos outros que nessas palavras pronunciaram-se, um pedido:
Ajudem-me a encontrar a verdade para eu me encontrar."
(jan\09)